Quarta-feira, 19 de Agosto de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 19 de agosto de 2026
“Vou tirar meu filho desta escola.”
O pai de uma criança de 9 anos explicava a decisão a um grupo de amigos durante um churrasco. Falava de uma das melhores escolas de Porto Alegre, mas estava convencido de que os professores não estavam preparados para lidar com seus filhos. A gota d’água tinha sido a nota do filho em inglês.
“Foi péssima”, contou. “Fomos direto reclamar com a coordenadora pedagógica, mas não fizeram nada.”
Ele não conseguia entender.
“Meu filho é fluente em inglês. Passa horas jogando on-line em inglês.”
Fiquei impressionado com a conversa, não porque o pai estivesse necessariamente errado. É legítimo esperar uma boa escola, e que professores estejam bem-preparados. Escolas precisam ser cobradas quanto ao seu desempenho, e quando uma criança apresenta dificuldades, alguma coisa precisa ser feita. Mas fiquei com uma pergunta na cabeça:
O que exatamente esperamos que a escola faça pelos nossos filhos?
Na verdade, talvez uma pergunta ainda mais incômoda:
O que esperamos que a escola faça que nós, como pais, já não estamos dispostos, ou não conseguimos mais fazer?
Enquanto é fácil olhar para uma nota ruim e culpar a escola, é certamente mais difícil olhar para a relação de uma criança com o aprendizado: sua falta de curiosidade, a impaciência, a dificuldade de concentração, a maneira como trata os outros, e perguntar quanto disso também tem a ver com o que acontece dentro de casa.
Talvez, em algum momento, tenhamos começado a terceirizar não apenas o ensino, mas parte da própria tarefa de educar.
Terceirizar é conveniente. Quando o resultado não corresponde ao que esperávamos, sempre podemos procurar alguém para culpar.
Afinal, para que serve a escola?
O filósofo John Dewey faz uma distinção que considero particularmente interessante: há conhecimentos necessários para a vida e outros necessários para que a vida valha a pena. Precisamos de matemática, língua, ciência. Precisamos saber ler, escrever e lidar com números. Precisamos entender que o mundo não termina nas fronteiras do nosso país, e que existem outras línguas, culturas, sistemas políticos e maneiras de enxergar a realidade.
Mas também precisamos de música, literatura, pintura, escultura, teatro.
Precisamos de curiosidade. De imaginação. Precisamos saber apreciar um bom alimento, uma obra de arte, a diversidade. Precisamos compreender o valor da família, da amizade, do afeto e da presença de um pai e de uma mãe.
É difícil imaginar uma vida plena sem alguma capacidade de apreciar essas coisas.
De fato, uma parte importante desse aprendizado deveria acontecer na escola. Mas não tudo.
Há coisas que nenhuma escola pode fazer no lugar da família. Podemos incentivar nossos filhos a ler, ajudar nas tarefas e levá-los a museus. Ouvir música com eles, viajar, fazer perguntas e se sentar à mesa para jantar sem o celular ao lado. Podemos mostrar, pelo exemplo, que aprender não termina quando toca o sinal da escola.
Porque ir à escola é uma atividade coletiva. Aprender, não necessariamente.
Aprender é uma experiência pessoal. Exige atenção, curiosidade, esforço e, muitas vezes, frustração. Exige também algo cada vez mais raro: momentos de silêncio.
Nenhum professor pode aprender pelo seu filho. Nenhuma escola pode ser curiosa por ele. Nenhuma escola conseguirá ensinar uma criança a valorizar aquilo que, dentro de casa, é tratado como irrelevante.
Talvez, então, a questão não seja apenas o que estamos terceirizando para a escola. Talvez seja também o que acontece quando deixamos de ocupar esse espaço em casa.
Aqui começa uma parte ainda mais preocupante dessa história. Porque, quando a escola e a família não ocupam seus devidos espaços na educação das crianças, alguém ou alguma coisa inevitavelmente ocupa o espaço que sobra. Existe na cabeça de algumas pessoas, outra alternativa à educação, e não é uma alternativa melhor.
É a anestesia.
Uma sociedade em que crianças passam boa parte do dia rolando a tela das redes sociais, consumindo uma enxurrada de conteúdos feitos para entreter, mas não necessariamente para ensinar; acumulando informação sem necessariamente compreendê-la; confundindo estar exposto a alguma coisa com aprender alguma coisa.
E talvez o mais perigoso seja que muitos estão se convencendo que as crianças estão aprendendo algo. Não estão.
Estamos sendo entretidos. Estão sendo expostos a conteúdo indevido, a riscos.
Isso me leva de volta àquele pai do churrasco. Ele não estava realmente reclamando de uma nota ruim em inglês. Estava tentando garantir um futuro melhor para o filho. Eu também. Todos nós, pais, estamos. Talvez seja por isso que eu o entenda.
Queremos a melhor escola. Os melhores professores. Porque queremos que nossos filhos tenham sucesso.
Mas, em algum momento, talvez tenhamos confundido educação com a entrega de um produto. Mandamos nossos filhos para a escola e esperamos resultados. Quando eles não aparecem, culpamos alguém, desde que não seja nós, nem nossos filhos, que são uma parte de nós.
A parte mais importante da educação nunca foi algo que pudéssemos terceirizar. A escola pode ensinar matemática. Um professor pode apresentar Mario Quintana, Paixão Cortês, Darwin, Einstein e Marie Curie.
Mas ninguém pode criar nossos filhos por nós.
Não se trata apenas de preparar nossos filhos para ganhar a vida. Trata-se de prepará-los para viver. Para apreciar o que é bom e ter as ferramentas culturais, intelectuais e emocionais para resistir aos desafios, que certamente serão muitos.
* Marcos José Leite Santos – professor da UFRGS