Quarta-feira, 06 de Maio de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 6 de maio de 2026

A 12ª edição da Feira Brasileira de Varejo (FBV), marcada para ocorrer entre 20 e 22 de maio de 2026, no Centro de Eventos FIERGS, em Porto Alegre, ultrapassa o formato tradicional de feira setorial e se afirma como um espaço de interpretação do futuro do consumo no Brasil. Mais do que reunir expositores e palestrantes, o evento passa a operar como termômetro de um varejo que deixou de ser linear para se tornar altamente orientado por dados, experiência e comportamento.
Promovida pelo Sindilojas Porto Alegre e pelo Sebrae RS, a FBV chega com o tema “O futuro do varejo é agora”, uma síntese direta de um setor que já não trabalha mais com projeções de longo prazo dissociadas da prática diária. A expectativa da organização é de mais de 12 mil participantes, cerca de 150 expositores e movimentação superior aos R$ 54 milhões registrados na edição anterior — números que, mais do que desempenho, indicam a consolidação do evento como plataforma de negócios e influência.
“Queremos fazer a maior edição da FBV da história”, afirma o presidente do Sindilojas Porto Alegre, Arcione Piva. A frase, embora institucional, reflete um movimento mais amplo: o reposicionamento do varejo gaúcho dentro de um cenário nacional em que competitividade não depende apenas de escala, mas de capacidade de adaptação tecnológica e narrativa de marca.
O que diferencia esta edição não é apenas a programação ampliada — com mais de 70 horas de conteúdo em quatro palcos simultâneos —, mas a natureza dos debates. Negócios, marketing, vendas, oficinas práticas e o espaço Pequenos Gigantes indicam uma tentativa clara de integrar o varejo em diferentes níveis de maturidade, algo que espelha uma tendência global: a dissolução das fronteiras entre pequeno, médio e grande quando o assunto é digitalização.
Nesse contexto, a FBV passa a ocupar um lugar semelhante ao de eventos internacionais de referência: menos vitrine comercial e mais laboratório de decisão. A presença de instituições como Fecomércio-RS e Sebrae RS reforça essa leitura. Para Luiz Carlos Bohn, o valor do encontro está justamente na convivência entre diferentes portes empresariais, criando um ambiente onde conhecimento e prática se retroalimentam.
O pano de fundo é um varejo em transição estrutural. Inteligência artificial, automação, análise de comportamento e economia de dados deixam de ser diferenciais competitivos e passam a integrar a infraestrutura básica do setor. O impacto disso não é apenas tecnológico, mas cultural: marcas precisam aprender a operar em um ambiente onde atenção é escassa, a fidelização é instável e a decisão de compra é cada vez mais mediada por plataformas.
A curadoria de palestrantes da FBV 2026 deixa isso evidente. A presença de nomes como Gue Oliveira e Ana Hickmann sinaliza a força da Creator Economy na formação de marcas pessoais e comerciais. Já Chico Felitti adiciona uma camada menos óbvia, mas cada vez mais central: a disputa pela narrativa como ativo econômico. Em um mercado saturado de mensagens, quem controla a história controla também parte da percepção de valor.
Na mesma linha, o futurista Jesper Rhode projeta o debate para um plano global, onde conectividade e comportamento digital redesenham cadeias inteiras de consumo. Juliana Velozo, da Thoughtworks, traz o contraponto pragmático ao traduzir tendências internacionais como as da NRF para a realidade brasileira — um movimento essencial em um país onde a defasagem entre inovação e aplicação ainda é um desafio estrutural.
Já Estevan Sartoreli, da Dengo Chocolates, insere uma variável cada vez mais decisiva: propósito como modelo de negócio, e não como discurso. E Rafa Lotto, da YOUPIX, sintetiza uma mudança já irreversível — a centralidade dos criadores de conteúdo como intermediários entre marcas e consumidores.
O que a FBV 2026 sinaliza, em última instância, é a maturação de um novo ciclo do varejo brasileiro. Não se trata mais de digitalizar lojas físicas ou integrar canais isolados, mas de reorganizar completamente a lógica de valor. O consumidor deixou de ser alvo e passou a ser sistema de referência.
Nesse cenário, Porto Alegre ganha relevância não apenas como sede do evento, mas como espaço de leitura estratégica de um setor em transformação acelerada. A FBV deixa de ser apenas feira para se tornar indicador: do que o varejo já é — e, principalmente, do que ele inevitavelmente será. (por Gisele Flores – gisele@pampa.com.br)