Domingo, 10 de Maio de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 9 de maio de 2026

Em um agronegócio cada vez mais pressionado por exigências de mercado, sustentabilidade e rastreabilidade, o bem-estar animal deixou de ser apenas uma pauta ética para se consolidar como indicador técnico de produtividade, qualidade e competitividade. Na Fenasoja 2026, em Santa Rosa, esse conceito ganhou centralidade no setor pecuário, transformando o manejo dos animais em uma vitrine de boas práticas e em demonstração de como a pecuária brasileira vem incorporando novos padrões globais de cuidado.
Ao longo dos dez dias da feira, o cuidado com os animais expostos passou a ser tratado como prioridade operacional. O planejamento começou antes mesmo da chegada ao parque de exposições, com protocolos específicos para reduzir estresse, evitar manejo excessivo e preservar a adaptação dos rebanhos a um ambiente temporariamente diferente daquele encontrado nas propriedades.
A decisão de escalonar a chegada dos animais após a abertura oficial da feira foi estratégica. Diferentemente de outras edições, a entrada ocorreu de forma posterior ao início do evento, permitindo melhor manejo logístico, menor pressão operacional e adaptação gradual ao novo ambiente. A medida levou em conta a rotina das propriedades, a organização dos produtores e, sobretudo, a preservação do conforto animal.
A atenção ao bem-estar ficou evidente também nos detalhes estruturais. Nesta edição, as camas de casca de arroz foram ampliadas em espessura e altura, oferecendo maior isolamento térmico, absorção e conforto físico aos animais. A medida dialoga com um conceito técnico cada vez mais valorizado na pecuária moderna: reduzir fatores de desconforto significa melhorar indicadores fisiológicos, sanitários e produtivos.
Segundo a presidente da Comissão de Pecuária da feira, Elisandra Simão Reis, o acompanhamento é contínuo e envolve monitoramento permanente do comportamento animal. “A ingestão de comida e água está sendo observada em todos os horários do dia, inclusive à noite. Fatores como frequência respiratória, ruminação em descanso, movimentação e comportamento tranquilo são indicativos de que eles estão confortáveis. É importante que os animais estejam expressando hábitos naturais da espécie, inclusive a curiosidade”, afirma.
A fala traduz uma mudança de paradigma. O bem-estar deixou de ser interpretado apenas como ausência de sofrimento e passou a ser medido pela capacidade do animal de expressar comportamento natural — um dos principais indicadores reconhecidos internacionalmente por protocolos técnicos e certificações.
Outro diferencial desta edição está no manejo hídrico. Para aumentar a palatabilidade e estimular o consumo, a água disponibilizada aos animais recebeu adição de frutas cítricas, estratégia usada para minimizar a rejeição causada pela mudança de sabor em relação à água consumida nas propriedades de origem.
Também houve adequação no posicionamento dos animais dentro dos pavilhões. As argolas foram intercaladas, ampliando o espaço individual e permitindo maior liberdade de movimentação. A orientação dos espaços considerou ainda a posição solar ao longo do dia, reduzindo exposição excessiva ao calor e favorecendo conforto térmico.
Na área destinada aos pequenos ruminantes, a lógica foi a mesma: conforto e sustentabilidade. Os recintos foram construídos com materiais reaproveitados e dimensionados com áreas mais amplas, permitindo melhor mobilidade e menor estresse ambiental.
Esse cuidado reflete uma tendência global. Mercados consumidores e protocolos internacionais ampliaram exigências relacionadas ao bem-estar animal, incorporando critérios que vão desde transporte até manejo e permanência em ambientes de exposição. O tema deixou de ser diferencial e passou a integrar a reputação das cadeias produtivas.
Na prática, sistemas produtivos que respeitam indicadores de conforto animal apresentam melhores índices reprodutivos, menor incidência de doenças e ganhos de eficiência. O retorno é econômico, sanitário e reputacional.
Ao transformar o setor pecuário em espaço de demonstração técnica, a Fenasoja reforça que o futuro da produção animal será construído não apenas por genética, nutrição e tecnologia, mas também pela capacidade de produzir respeitando as necessidades biológicas dos rebanhos. Na maior feira multissetorial do país, o recado é claro: produtividade e bem-estar caminham juntos — e definem o novo padrão da pecuária brasileira. (Por Gisele Flores -Gisele@pampa.com.br)