Terça-feira, 03 de Novembro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 2 de novembro de 2026
Quando Jair Bolsonaro (PL) deixou o Brasil rumo aos Estados Unidos sem reconhecer a derrota nas eleições de 2022, recebeu críticas de parte dos militares que, apesar de terem apoiado sua candidatura em peso desde 2018, consideraram o gesto incompatível com os valores da caserna. Alguns integrantes das Forças Armadas, inclusive, participaram da trama golpista para tentar impedir a posse de Lula (PT).
Quatro anos depois, mesmo os críticos de Bolsonaro voltaram a apoiar o número 22, com adesão maciça da chamada “família militar” — militares da ativa e da reserva, além de seus familiares e pensionistas. O antipetismo, ainda forte nas Forças Armadas, pesou na escolha de Flávio Bolsonaro (PL).
A derrota eleitoral de 2026, seguida de nova fuga de um Bolsonaro para os EUA, contestação do resultado e divulgação de uma carta golpista, provocou uma onda ainda maior de críticas entre os apoiadores fardados.
Nesse cenário, o governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), favorito dos militares para uma candidatura presidencial, começou a se afastar do bolsonarismo e admitiu considerar disputar o Planalto em 2030. Os movimentos impulsionaram uma campanha antecipada em seu favor na caserna.
Capitão da reserva do Exército, Tarcísio deixou a carreira militar em 2008 e entrou na política em 2018, como ministro de Bolsonaro. A reportagem ouviu integrantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, incluindo ex-comandantes e oficiais que atuaram em diferentes governos. Todos falaram sob anonimato, alegando instabilidade no cenário político.
Um oficial-general que trabalhou no Congresso e em diferentes governos comparou a fuga de Flávio ao abandono de uma tropa pelo comandante, atitude considerada imperdoável na cultura militar. Outro afirmou que a indignação não é ideológica, mas relacionada a valores como caráter, honra, lealdade e gratidão.
Um ex-comandante de Força disse esperar que Lula tenha sabedoria para pacificar o país e resumiu o sentimento na caserna: “Menos Janja, mais Alckmin. Menos Bolsonaro, mais Tarcísio”.
O governador paulista é visto pelos entrevistados como alguém alinhado aos valores conservadores da família militar e preparado para disputar a Presidência. Pesam sua experiência em três governos — Dilma, Temer e Bolsonaro — e o comando do estado mais rico e populoso do país.
Entretanto, seu passado militar é um dos principais fatores de identificação com a caserna. Segundo um coronel recém-transferido para a reserva, enquanto Bolsonaro deixou o Exército em situação controversa, Tarcísio saiu “pela porta da frente”, após aprovação em concurso público.
Sua formação no Instituto Militar de Engenharia (IME), depois de concluir a Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), e sua participação na missão de paz da ONU no Haiti também reforçam sua ligação com o Exército.
Embora tenha sido escolhido por Bolsonaro e ainda evite confrontar o antigo aliado, militares apostam que o rompimento ocorrerá no próximo ciclo eleitoral. A avaliação é que os setores mais radicais da família militar permanecerão com os Bolsonaros, mas a maioria poderá migrar para Tarcísio.
Apesar de alguns oficiais reconhecerem que os dois primeiros governos Lula foram positivos para as Forças Armadas, especialmente pelos investimentos em projetos estratégicos, o antipetismo prevaleceu na eleição de 2026.
Também pesou a insatisfação com o Supremo Tribunal Federal (STF). Militares consideraram enviesado o julgamento da trama golpista e questionaram a equiparação dos atos de 8 de Janeiro a uma tentativa de golpe. Outra crítica recorrente foi o tamanho das penas aplicadas, consideradas excessivas até por oficiais que defendem a punição dos envolvidos na tentativa de ruptura institucional.
Tarcísio também tem feito gestos de aproximação com os militares. Na entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, elogiou o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, reconhecido na caserna por trabalhar pela pacificação das relações entre civis e militares após a trama golpista.
Dos 29 condenados pelo STF no processo principal, 21 são integrantes das Forças Armadas. O episódio prejudicou a imagem da instituição e levou Múcio e os atuais comandantes a reforçar medidas contra manifestações políticas e candidaturas de militares da ativa.
Apesar disso, a militarização da política continua. O número de militares e policiais eleitos em 2026 voltou ao patamar recorde registrado durante o governo Bolsonaro, conforme levantamento da Folha.
Enquanto isso, permanece parado no Congresso o projeto de emenda constitucional que obrigaria militares da ativa a passar para a reserva ao registrar candidatura eleitoral. A proposta enfrenta forte resistência nas Forças Armadas. (Com informações da Folha de S.Paulo)