Terça-feira, 29 de Setembro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 28 de setembro de 2026
Após anos afastada do meio artístico, a atriz Giulia Gam está de volta – e enfileirando projetos. Em cartaz no Rio de Janeiro com “Senhora dos afogados”, montagem do Teatro Oficina para o clássico de Nelson Rodrigues, que passou um ano em cartaz em São Paulo, a atriz também estreou a novela vertical da Globoplay “O acerto de contas das gêmeas trocadas” e está filmando uma série da plataforma, “Resposta ao tempo”, com Debora Bloch, Drica Moraes e Edvana Carvalho.
A retomada começou pelo teatro. Depois de trabalhos mais esporádicos, Giulia voltou aos palcos em 2025 com o Teatro Oficina. Tendo participado da montagem de “Cacilda”, sobre a atriz Cacilda Becker, dirigida por Zé Celso (1937-2023) em 1998, a atriz conta que sempre manteve boa relação com a companhia do diretor. Dessa forma, quando a diretora Monique Gardenberg, também amiga e parceira de outros trabalhos, fez o convite, a atriz nem pensou duas vezes.
“Essa confluência de pessoas bacanas da minha história, da minha vida, ligadas pelo afeto… Acho que foi isso que me deu muita vontade de voltar. Foi um retorno às origens”, conta.
Considerado um dos trabalhos mais emblemáticos de Nelson Rodrigues, o espetáculo chegou a ser censurado e dividiu o público na estreia, em 1954, com Nathalia Timberg no elenco e direção de Bibi Ferreira. Em diálogo com histórias gregas como “Édipo” e “Electra”, a trama ambientada numa casa à beira-mar explora a tragédia da família Drummond, marcada por desejos incestuosos, traições e mortes de mulheres levadas pelo mar. Parte do coro de vizinhas — completado por Cristina Mutarelli, Michele Matalon e Lígia Cortez –, Giulia representa o papel da opinião pública, que julga o núcleo protagonista.
“A partir daí, fui retomando meus contatos em São Paulo, não só de família, de amigos, mas também da parte artística. Daí fiz aquela novelinha vertical e surgiu o convite dessa série [“Resposta ao tempo”]”, conta.
Se em “O acerto de contas das gêmeas trocadas” a atriz seguiu num papel secundário, como mãe do par romântico de umas protagonistas, em “Resposta ao tempo” ela assume o protagonismo junto com companheiras de longa data. No Original Globoplay, Ana (Débora Bloch), Heloísa (Giulia Gam), Carla (Edvana Carvalho) e Renata (Drica Moraes) são uma ex-equipe campeã de nadadoras profissionais na casa dos 50 anos que, depois de anos afastadas do esporte, decidem se reunir novamente para uma competição.
Atravessadas por questões como a maternidade, o casamento e a menopausa, o retorno às águas parecia uma oportunidade para retomar a pulsão de vida, mas, antes da competição, uma delas sofre feminicídio. Escrita por Lícia Manzo e dirigida por Luisa Lima, a série trata de temas como violência contra a mulher, etarismo, desejo, autonomia e identidade.
“A minha personagem deixou a natação para casar, engravidou e se dedicou por mais de 30 anos ao casamento. Teve dois filhos e virou dona de casa. Então, quando vem o convite para voltar a nadar, é uma grande mudança na vida dela”, diz.
Para convencer como uma ex-atleta, Giulia tem encarado uma rotina de preparação que inclui treinos na piscina e no mar, além de gravações na água. Junto de Débora, Drica e Edvana, a atriz conta como têm sido os dias de aprendizagem com uma equipe de nadadoras profissionais, que além de ensinar, também atuam como dublês.
“Todo mundo meio estrupiado, meio machucado. Na hora, a gente está fingindo bem”, brinca a atriz, que tem relembrado seus dias como atleta profissional. “Eu já fui atleta também, fazia esgrima. Cheguei a competir pelo Pinheiros. Tive meu período sério de federada até os 15 anos. Tem sido um resgate da questão do esporte.”
Ao retomarem uma paixão abandonada na juventude, as quatro amigas da história também redescobrem confiança, autoestima, autocuidado, desejo e novas possibilidades para a vida. Um recomeço que ganha outra camada ao ser protagonizado por quatro atrizes maduras.
“A gente está muito feliz porque somos as quatro protagonistas e é a história das protagonistas. No audiovisual tem essa questão do envelhecimento, da imagem, e geralmente as protagonistas são jovens. Quando você envelhece, passa a ser a mãe da protagonista. Mas estão surgindo também esses papéis de mulheres mais velhas, mais maduras. Hoje as mulheres também estão contando as suas histórias”, celebra a atriz, que destaca a importância de uma equipe criativa majoritariamente feminina na produção.
A arte imita a vida
Aos 59 anos, Giulia também encontra paralelos entre a fase das personagens e a que vive fora das telas. Assim como as nadadoras, a atriz diz se aproxima dos 60 com uma percepção positiva da maturidade.
“Acho incrível porque, neste momento que estou vivendo, nunca tive tanta energia, tanta sabedoria e tanta consciência corporal. Ao mesmo tempo, a conta chega. O corpo, coitado, vai se esforçando o máximo possível para tapar os buracos, mas tem uma hora em que não consegue segurar muito”, conta a artista, que diz ter intensificado os cuidados com a saúde nos últimos anos.
O autocuidado também passa por uma seletividade maior nos projetos profissionais. Hoje, a atriz diz que a motivação para aceitar um trabalho está totalmente relacionada à satisfação pessoal.
“Não tenho mais aquelas ambições de juventude, de fazer determinado papel, determinada peça. O que mais está me encantando é poder fazer com mais prazer. O que está importando agora para mim são as relações humanas: como fazer, com quem fazer, de que maneira fazer, por que fazer”, enumera. “Aos 60 anos, ou você se senta no que já conquistou, ou lamenta as dores do que aconteceu, ou tem a chance de inventar um terceiro capítulo da história. Na verdade, a gente está entrando no terceiro ato. E, graças a Deus, a gente está com um tesão.”
Entre os desejos para a nova fase, está se aproximar mais do cinema, linguagem que diz admirar e à qual gostaria de ter se dedicado mais ao longo da carreira. Giulia também planeja retomar, em São Paulo, um projeto de leituras gratuitas de dramaturgia nos moldes de “Tudo é teatro”, que realizou durante cinco anos no Rio.