Segunda-feira, 28 de Setembro de 2026

Home Política Governo perdeu R$ 22 bilhões de arrecadação por causa das empresas de apostas, diz economista

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O governo anunciou na sexta-feira (25) a proibição das bets no País. A informação caiu como uma bomba no setor, que gerou uma arrecadação de R$ 9 bilhões para os cofres públicos no ano passado e de R$ 9,9 bilhões somente entre janeiro e agosto desse ano. Esses números positivos, entretanto, podem ser uma miragem.

Um estudo publicado no fim de agosto pelo economista Guilherme Klein, professor do Instituto de Economia da UFRJ e pesquisador do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da USP (MADE/USP), indica que os impactos financeiros negativos das bets na renda da população superam, e muito, os efeitos positivos conseguidos via arrecadação direta.

De acordo com Klein, na verdade, o governo perdeu dinheiro com o avanço das casas de apostas no País. Somente em 2025, o economista estima que as bets retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica, em razão da redução do consumo das famílias pela alta do endividamento ligado a apostas. Isso significaria uma perda de, pelo menos, R$ 31,1 bilhões em arrecadação no período.

Descontando desse montante os R$ 9 bilhões arrecadados diretamente com as próprias plataformas, o efeito líquido nas contas públicas ainda seria negativo em R$ 22 bilhões. Para o pesquisador, o governo acerta em proibir a atividade.

“A medida é correta. A princípio, uma taxação maior que compensasse os efeitos negativos poderia ser uma alternativa, mas, dado o tamanho dos efeitos negativos, no momento, essa é a melhor opção”, disse Klein.

A conclusão do estudo vem de um cenário complexo. Para chegar aos números citados acima, Klein partiu de um dado estimado pelo Centro Celso Furtado, de que, no ano passado, as famílias transferiram R$ 62,5 bilhões para as plataformas de apostas. O número já é líquido, ou seja, é a diferença entre todo o valor que foi empregado em apostas e o que as pessoas receberam de volta, os ganhos.

Em cima desse montante, Klein aplicou a “propensão a consumir”, uma estimativa usada na Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que mostra quanto cada R$ 1 a mais no orçamento das famílias se transforma em consumo. Todo esse cálculo com o objetivo de entender o que, desses R$ 62,5 bilhões que as famílias perderam para apostas, se transformaria efetivamente em consumo.

Como cada R$ 1 gasto na economia se multiplica pelo efeito circular do consumo, chega-se aos números finais de R$ 120 bilhões a R$ 140 bilhões, já descontados empregos e renda gerados direta e indiretamente pelas próprias empresas de bets.

“Muita gente tem falado como se o governo estivesse abrindo mão de arrecadação ao proibir as bets, quando, na verdade, o que acontece é que o governo já está tendo uma perda de arrecadação”, diz Klein, que cita também o aumento dos gastos no Sistema Único de Saúde (SUS) para tratar casos de ludopatia, o vício em apostas.

Segundo o estudo “A Saúde dos Brasileiros em Jogo”, do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), os danos associados às apostas e jogos de azar no Brasil geram um custo social anual de R$ 30,4 bilhões ligado à saúde. Destes, R$ 17 bilhões por mortes adicionais por suicídio; R$ 10,4 bilhões por perda de qualidade de vida decorrente de depressão; e R$ 3 bilhões em tratamentos médicos para depressão.

A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) contesta os dados apresentados por Klein e classifica o estudo como um “cenário ilustrativo” fortemente dependente das hipóteses adotadas, não uma estimativa causal de efeitos das bets sobre o Produto Interno Bruto (PIB).

“Números dessa magnitude, quando apresentados como estimativas de impacto econômico, exigem contrafactual explícito, tratamento simétrico dos setores comparados, análise de sensibilidade e demonstração da causalidade antes de servirem de fundamento para decisões regulatórias ou para afirmações categóricas no debate público”, diz a ANJL. (Com informações do portal Estadão)

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