Sexta-feira, 17 de Abril de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 17 de abril de 2026
Jovens LGBTQIA+ têm um risco até 2,3 vezes maior de usar drogas e início mais precoce. É o que mostrou um estudo de pesquisadores brasileiros publicado na revista científica International Review of Psychiatry. Para especialistas, o cenário, constatado por diferentes trabalhos conduzidos ao redor do mundo, revela o efeito de fatores como preconceito, rejeição e medo de violência na população LGBTQIA+ e seus impactos na saúde mental.
A nova pesquisa acompanhou dados de 1.492 jovens das cidades de São Paulo e Porto Alegre participantes da Brazilian High-Risk Cohort Study for Mental Health Conditions (BHRC), um estudo de longo prazo com avaliações a cada quatro anos que teve início ainda em 2010. Os responsáveis pelo trabalho analisaram dados coletados entre 2017 e 2018, quando os voluntários tinham idades entre 9 e 21 anos, com uma média de 18 anos.
Os jovens responderam questionários com perguntas sobre orientação sexual, identidade de gênero e uso de quatro substâncias psicoativas: álcool, tabaco, maconha e cocaína. Do total, 247 se identificavam como LGBTQIA+. Ao analisar os dados, os pesquisadores observaram maiores taxas de consumo na comunidade para todas as drogas menos álcool.
Em relação ao tabaco, 48% dos jovens LGBTQIA+ relataram uso, proporção que foi de 37% entre os heterossexuais cisgênero (aqueles que se identificam com o gênero atribuído no nascimento). Para a maconha, a diferença foi de 40% versus 27% e, para a cocaína, de 7,4% contra 3,6%. Para o álcool, os percentuais foram de 85,9% e 83,7%, sem diferenças estatisticamente relevantes.
Com isso, os pesquisadores estimaram que a população LGBTQIA+ teve 66% chances de uso de tabaco, 94% vezes mais chances de uso de maconha e mais que o dobro (2,28 vezes mais) de chances de uso de cocaína no período analisado.
Esse risco maior foi ainda mais significativo entre mulheres LGBTQIA+ cisgênero. O início do consumo de drogas foi, em média, entre 10 e 15 anos no grupo, enquanto para as mulheres heterossexuais cisgênero foi entre os 13 e 17 anos. E as taxas de uso foram especificamente maiores entre as bissexuais, em que 56% usavam maconha e 9,2% cocaína.
“Isso corrobora dados internacionais que temos na área que mostram que mulheres bissexuais têm pior saúde mental comparado com seus pares LGBTQIA+. Utilizamos um termo ‘penalidade bissexual’, que no senso comum é a bifobia. Acreditamos que elas enfrentam uma dificuldade dupla de se sentir pertencentes da população no geral, mas também da própria comunidade LGBTQIA+, além de ter o fator do gênero envolvido”, explica Tauana Mendonça, doutoranda em Psiquiatria e Ciências do Comportamento na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Esse impacto na população LGBTQIA+ tem sido abordado cada vez mais na literatura científica. Um estudo conduzido com 4.610 alunos de 14 a 19 anos de escolas de ensino médio da região de Grande Vitória, no Espírito Santo, em 2023, também encontrou uma frequência 54% maior de experimentação de drogas entre indivíduos LGBTQIA+ e 76% maior de uso cotidiano. O trabalho foi publicado no ano passado no periódico International Journal of Environmental Research and Public Health.
Já uma meta-análise que englobou resultados de 304 trabalhos de diferentes lugares, com quase seis milhões de jovens, encontrou uma chance maior de uso para diversas substâncias, que chegava a ser 4,63 vezes superior para heroína entre jovens LGBTQIA+. O estudo, feito por pesquisadores americanos, foi publicado na revista Addiction.
Embora os trabalhos não examinem as causas exatas do uso de drogas, os especialistas explicam que é comum observar uma frequência maior em populações marginalizadas, como a LGBTQIA+, a negra, a de imigrantes, entre outras. Um dos fatores que contribuem é algo chamado “estresse de minorias”, explica Tauana.
“Conseguimos perceber que essas populações têm estressores crônicos bem específicos que vêm pela discriminação, preconceito, medo de violência, dificuldade de ser aceito e de se enxergar na sociedade. Isso já é um consenso, mas estudos têm começado a analisar em detalhes as repercussões em cada grupo.”
A pesquisadora conduziu, como parte de sua dissertação de mestrado, uma análise de indivíduos que participam da mesma coorte utilizada no novo estudo da USP, mas que buscou a relação entre ser LGBTQIA+ e questões de saúde mental.
Os resultados, publicados em forma de artigo no periódico Journal of Affective Disorders, mostraram uma chance 3,37 vezes maior de jovens da comunidade relatarem transtorno de ansiedade, chegando a afetar quase 1 em cada 3, além de uma chance 2,17 vezes maior de depressão e 4,2 vezes maior de transtorno de estresse pós-traumático.
Já um levantamento nacional conduzido no ano passado pelo Instituto Cactus, entidade filantrópica ligada à promoção do bem-estar psíquico, junto à AtlasIntel, empresa especializada em pesquisas e dados, identificou que, dentro de um índice de saúde mental que varia de 0 a 1000, o de indivíduos homossexuais e bissexuais foi, respectivamente, 547 e 531, mais de 100 pontos abaixo daquele de heterossexuais, que ficou em 681. (Com informações do jornal O Globo)