Quinta-feira, 28 de Maio de 2026

Home Colunistas Lembranças que ficaram (72) – Uma linda gaita… e um feliz teclado

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No início de 1949, eu ainda com 9 anos, meus pais vieram de carro a Porto Alegre e, na volta, para minha alegria e total surpresa, me presentearam com um lindo acordeon (uma gaita, como se diz aqui no RS), de fabricação italiana, de 80 baixos, com 10 registros de modulações de som, coisa mais linda, marca “Settimio Soprani”. Em seguida, tratou-se de procurar quem me ensinasse a tocar. Eu não sabia, criança que era, que tinha “ouvido” para música (e tinha); apenas sabia que gostava e tinha facilidade de decorar músicas tocadas no rádio. Fui ter aulas para aprender.

No primeiro dia de aula, caminhando pela rua em direção à casa da Professora, numa expectativa que só eu sei quão grande era, fui pensando: “será que hoje ela já vai me ensinar a tocar ‘O Boi Barroso’ ou a valsa ‘Erika’, ou qual música? Vou querer uma das que eu gosto”.

Que homérica decepção: por meses seguintes nem peguei na gaita. Era notas, solfejos, fusas, semifusas e “treme-fusas”, até que um dia ela disse: “hoje você vai para o piano”.

– Piano?… Bem, não era gaita, mas tinha teclado – “é hoje”, pensei.

Nossa!… Não foi nada!! Por 2 meses fiquei tocando notas corridas pra esquerda e pra direita com a mão esquerda e com a mão direita, e minha linda “Settimio Soprani”, de 80 baixos, acordeon italiano da mais requintada estirpe, fabricada logo depois da guerra, continuava fechada no seu belo estojo de couro forrado de veludo vermelho. Foi comprada na loja do amigo do meu pai, Romano Tófolli Culau & Cia., uma fina loja na rua Dr. Flores…

Mas, com aquelas aulas monótonas e repetitivas, semana após semana, confesso que meu entusiasmo estava, pouco a pouco, desaparecendo, sem que eu mesmo disso me desse conta.

Mas o tempo foi passando até que um dia recebi a partitura de uma conhecida valsinha alemã chamada ‘Valsa Erika’. Sabia a música de ouvir, mas não sabia ler a partitura muito bem. Meio sem entusiasmo, pois o que eu queria era tocar as músicas que eu gostava, mas obediente, foi-foi-foi, até que aprendi. De tanto tocar, até passei a gostar e então já tocava sem olhar a partitura.

Aí então veio uma 2ª, 3ª, 4ª valsa e, finalmente, uma rancheira, um fox e, imagina só, um dia um tango. Foi um “parto” aprender esse tango e ‘segurar’ o ritmo.

Assim fui, ‘meio a reboque’, juntando um repertório e, todas as tardes, tocava durante uma meia hora, mas a música era ‘sem alma’, sem entusiasmo, sem me dar conta da minha latente e escondida capacidade de “tocar de ouvido”.

Só muitos anos mais tarde (mais de 40 anos depois), quando já não tinha mais a gaita e já aposentado, comprei um teclado “Roland” e aí então toquei todas as valsas, todos os boleros, todos os tangos que me vieram à cabeça…

Me relacionei, via e-mail e internet, com o grande pianista cubano Enrique Chia, engenheiro, diretor-presidente de uma siderúrgica nos EE.UU., a quem tive o prazer de conhecer e com quem conversei pessoalmente, cuja capacidade de interpretação transcende o comum e é conhecido como o pianista que “faz o piano falar”. E, de fato… é de deixar a gente de boca aberta.

Ser seu amigo e dar vazão à minha capacidade foi bom… Isso me deixou muito orgulhoso e feliz…

Através dele conheci bem o repertório do grande Agustín Lara e, especialmente, de Ernesto Lecuona, autor da conhecidíssima e muito linda canção Siboney, interpretada por todos os grandes cantores e cantoras do mundo, incluindo Plácido Domingo, Nana Mouskouri e Mireille Mathieu e, aqui no Brasil, consagrada nos anos 50 como “marca registrada” do lânguido cantor Ivon Curi.

O meu teclado era marca “Roland”, tinha um som de piano que parecia um Steinway de cauda. Eu passava horas me distraindo, usando-o como piano, até que um dia, por descuido, ele caiu do pedestal, quebrou alguma coisa interna; mandei arrumar, mas “já não era o mesmo”. E, com o coração partido, vendi… Fiquei triste e nunca mais toquei.

Nota: No artigo anterior (71), mencionei Miguel Arraes como líder das Ligas Camponesas, no Nordeste. Embora ele tenha tido participação e as defendido, quem se notabilizou nacionalmente como líder e defensor foi o advogado e deputado Francisco Julião.

Quem me alertou foi o nosso conterrâneo e saudoso batalhador ex-deputado federal Omar Ferri, gaúcho de Encantado, que, aos 93 anos de idade, continua atento ao mundo que o cerca.

  • Luiz Carlos Sanfelice  (Contato: lcsanfelice@gmail.com)

 

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