Segunda-feira, 10 de Agosto de 2026

Home Variedades “Não existe bom pai que bate na mãe dos filhos”

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Marco na legislação de proteção à mulher, a Lei Maria da Penha completou 20 anos na sexta-feira (7), ao mesmo tempo em que o Brasil vê os índices de feminicídio subirem. Foram 1.571 casos ao longo do ano passado, 4% a mais que em 2024. Mas a alta nas estatísticas, na opinião da psicóloga e coreógrafa Lili de Grammont, não pode ser interpretada de forma simplista como fracasso da lei.

Órfã de um feminicídio que chocou o País nos anos 1980, quando o cantor Lindomar Castilho assassinou a tiros a ex-esposa Eliane de Grammont, Lili afirma que o problema não está na lei, mas em falhas na sua implementação, que demanda investimento e capacitação profissional.

Em entrevista ao Estadão, a ativista defende que o poder público desenvolva políticas efetivas para dar assistência aos órfãos do feminicídio por meio da criação de centros de referência. “É dever do Estado garantir que essas crianças tenham o direito de voltar a ser crianças. O Estado falhou em proteger a mulher e, ao permitir que o feminicídio acontecesse, também falhou com seus filhos. Sua responsabilidade não termina no pagamento de um benefício financeiro”, diz.

Quando Lindomar assassinou a ex-mulher no palco do Belle Époque em São Paulo, a filha tinha dois anos. Lili ficou parte da infância sem saber que o pai havia cometido o crime. Só mais tarde, quando tinha seis anos, descobriu por uma prima que tinha a mesma idade.

Lili contou sobre a relação complexa com seu pai e as reflexões que fez e faz após sua morte, no fim de 2025. “Quando descobri quem ele era, uma parte de mim morreu. Não porque deixei de amá-lo, mas porque nunca mais consegui olhar para ele como pai. Costumo dizer que o homem que mata morre”, reflete.

1. Que tipo de aprimoramento falta fazer na lei?
O maior aprimoramento que precisamos fazer não é no texto da lei, mas na forma como ela é aplicada. Precisamos de formação continuada para magistrados, promotores, delegados, policiais, conselheiros tutelares, assistentes sociais e todos os profissionais que atuam nessa rede. Enquanto a cultura patriarcal continuar influenciando as decisões das instituições, a proteção prevista na lei continuará chegando de forma incompleta para muitas mulheres e crianças.

2. Se essa legislação existisse, sua mãe seria protegida?
Tenho convicção de que ela teria encontrado muito mais caminhos para buscar ajuda.

3. A condenação do seu pai foi um marco nos anos 80.
Infelizmente, foi preciso que um homem famoso assassinasse uma mulher para que o Brasil parasse e olhasse para uma violência que já acontecia todos os dias. Existem vários tipos de autores de violência. Meu pai era extremamente violento com a minha mãe. Eu presenciei agressões físicas contra ela. E quero dizer uma coisa com muita clareza: não existe bom pai que bate na mãe dos seus filhos.

4. O Estado protege devidamente as crianças filhas de vítimas de feminicídio? O que fazer?
Não. Ainda estamos longe de oferecer a proteção que essas crianças realmente precisam. Na minha pesquisa de pós-graduação em Direitos Humanos, defendo a criação do Centro de Referência aos Órfãos do Feminicídio (CROF), uma política pública especializada para acompanhar essas crianças e adolescentes ao longo do desenvolvimento.

5. Temos visto uma cultura de ódio às mulheres em ascensão no Brasil. Por que acha que isso ocorre? Como lutar contra essa tendência?
Acho que estamos diante de alguns fenômenos acontecendo ao mesmo tempo. O primeiro é positivo: existe uma diminuição da subnotificação. Mais mulheres estão denunciando. Ao mesmo tempo, acredito que existe um movimento de backlash. Sempre que um grupo conquista direitos, surgem forças que tentam impedir esses avanços ou até fazer com que eles retrocedam.

Mas existe um terceiro fenômeno que, para mim, é um dos mais preocupantes e que ainda discutimos pouco: nossos meninos estão sendo educados pelos algoritmos. Hoje, muitos adolescentes passam horas consumindo conteúdos produzidos por influenciadores que ensinam uma masculinidade baseada no poder, no controle e na desvalorização de mulheres. (As informações são do jornal O Estado de S. Paulo)

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