Quinta-feira, 19 de Maio de 2022

Home em foco No Leste da Ucrânia, moradores esperam a invasão russa

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Desde que a guerra começou no leste da Ucrânia, em 2014, a região lida com destruição e pobreza. Próximo a Fenolna, última estação de trem antes da zona de conflito, ocupada pelos separatistas, os moradores de Niu-York culpam Rússia e Ucrânia pela crise.

A cidade de 10 mil habitantes, a três quilômetros da linha de combate, foi fundada por imigrantes alemães em 1892 – e um deles era casado com uma americana, daí a homenagem a Nova York. Victor, de 53 anos, e seu filho Vitali vivem em um dos bairros mais castigados pela guerra. Várias residências foram abandonadas. Outras, destruídas.

Como muitos em Niu-York, Victor e Vitali não estão preocupados com a invasão russa, apesar dos quase 200 mil soldados mobilizados na fronteira. Victor, que é caminhoneiro, diz que já ouviu essa conversa de guerra antes. “Se a Rússia quisesse, tomaria a Ucrânia em dois dias”, disse. “Não acho que os russos farão isso.”

A guerra entre a Ucrânia e os separatistas apoiados pela Rússia começou em 2014 e deixou mais de 13 mil mortos. Se as previsões dos EUA, de que a Rússia pode atacar a qualquer momento, se concretizarem, Niu-York estaria bem no centro da área de combate. Mesmo assim, Victor não se assusta. “Tudo não passa de propaganda do governo”, disse.

Para ele, Rússia e Ucrânia são igualmente culpados pela crise. Victor diz que são os políticos que têm sido incapazes de encontrar um acordo, não as pessoas comuns. “As pessoas do outro lado são como nós”, afirmou. “Somos iguais.”

Para quem vive no leste da Ucrânia, não existe ameaça de guerra, pois os conflitos estão em andamento há oito anos. Habitantes da região afirmaram que convivem há anos com o risco de ataques de morteiros e lamentam que a violência tenha afastado investimentos e empregos.

A falta de trabalho é um problema crônico de Niu-York. Mesmo quem tem, ganha mal. O salário médio de US$ 70 (R$ 360) é insuficiente para se manter. Várias minas de carvão e fábricas da região fecharam, deixando as pessoas sem nada. “Temos de manter horta no quintal para sobreviver. Até mesmo eu, que tenho emprego”, afirmou Victor. “Vi aposentados comprando um pão, partindo em quatro e comendo um pedaço por dia. É terrível. A guerra paralisou tudo.”

Uma pesquisa do Instituto Internacional de Sociologia de Kiev constatou que um terço dos ucranianos afirma que pegaria em armas para proteger a Ucrânia caso os russos invadam o país, mas esse número é mais baixo no leste, onde a maioria dos habitantes tem origem russa. Por isso mesmo, muitos moradores do leste têm uma atitude mais positiva em relação à Rússia do que no restante da Ucrânia.

Diferenças

“Se a Rússia tentar ocupar as regiões de fala russa na Ucrânia, a maioria não fará objeção”, disse o analista ucraniano Volodimir Fesenko, que dirige o instituto Penta Center. “Mas haverá resistência ativa. Em todas as regiões de fala russa, há muitos nacionalistas, incluindo de origem russa.”

Fesenko diz que os habitantes do leste da Ucrânia estão cansados de uma guerra que dividiu famílias, afastou amigos e trouxe miséria. “Os moradores do leste são taxados de pró-Rússia, mas isso é um erro”, afirmou o analista ucraniano Andrei Buzarov, do instituto KyivStratPro. “Eles possuem uma visão mais pragmática do relacionamento com a Rússia, mas não são pró-Russia.”

De acordo com Buzarov, o governo de Kiev, entre outras manobras, aprovou uma lei determinando que toda a comunicação oficial ocorra em ucraniano, o que passou a ideia de exclusão deliberada da maioria das pessoas, que tem o russo como primeira língua. Além disso, segundo Buzarov, os líderes da Ucrânia nunca estiveram dispostos a abrir concessões para obter paz.

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