Quinta-feira, 23 de Julho de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 23 de julho de 2026
Em 1824, quando os primeiros imigrantes alemães eram recrutados para atravessar o Atlântico, o Brasil era vendido como uma promessa irresistível. “Venham”, dizia a propaganda. Aqui haveria terras férteis, estradas excelentes, ferrovias, cidades modernas, igrejas, escolas, hospitais, bancos, prosperidade. Bastaria desembarcar para encontrar o paraíso. A realidade encontrada aqui, contudo, foi bem outra.
No romance Jedem sein Paradies, de Otto Grellert, recuperado pelo historiador Rodrigo Trespach, os colonos logo descobrem que muitas dessas promessas existiam apenas no papel. As estradas eram picadas abertas no mato. As ferrovias jamais chegavam. O Estado aparecia muito menos do que os panfletos anunciavam. Restava aos próprios imigrantes construir, com o suor das mãos, aquilo que lhes havia sido prometido.
Passados mais de duzentos anos, é impossível não perceber que o Brasil continua cultivando essa mesma cultura do blefe. Mudaram os destinatários da propaganda. Antes eram camponeses alemães fugindo da pobreza europeia. Hoje somos nós mesmos, brasileiros que ouvem diariamente promessas e mais promessas ditas, na maioria dos casos, justamente por quem menos demonstra preocupação em mudar o País.
A cada eleição, o país renova seu catálogo de promessas. Reforma tributária que simplificará tudo. Reforma administrativa que tornará o Estado eficiente. Educação que finalmente será prioridade. Saúde universal funcionando plenamente. Segurança pública. Infraestrutura. Crescimento sustentável. Combate à corrupção. Menos burocracia. Mais produtividade. As décadas passam. Os discursos mudam. As promessas permanecem, os blefes abundam.
O curioso, mas nem por isso menos trágico, é que o Brasil desenvolveu uma impressionante capacidade de anunciar futuros grandiosos enquanto convive com problemas que atravessam gerações. Fala-se em inteligência artificial enquanto milhões de brasileiros ainda enfrentam escolas sem estrutura básica. Discute-se a economia do conhecimento enquanto rodovias esburacadas, portos congestionados e ferrovias insuficientes continuam elevando o custo de produzir. Prometemos ser a potência do futuro desde o século XIX. Talvez nenhum país tenha vivido tanto tempo dentro do próprio futuro sem, contudo, encontrá-lo de fato.
Há. É preciso dizer, uma diferença importante entre esperança e propaganda. Esperança mobiliza. Propaganda anestesia. A esperança nasce da verdade sobre os desafios. A propaganda depende da ocultação deles. O mais preocupante é que as falsas promessas fomentam o ceticismo, pai do cinismo, que juntos forjam o ressentimento, matriz que atrai o messianismo travestido em falsos “salvadores da pátria”.
Os imigrantes alemães, apesar do blefe, acabaram construindo comunidades prósperas porque deixaram de esperar pelo Estado e passaram a confiar no trabalho, na cooperação e nas instituições locais. Onde faltavam estradas, abriram caminhos. Onde não havia escolas, ergueram salas de aula. Onde inexistiam hospitais, organizaram redes comunitárias. A prosperidade veio muito mais da capacidade de organização da sociedade do que da eficiência governamental.
O problema nunca foi sonhar grande. Países precisam de visão de futuro. O problema é transformar a promessa em método de governo e o anúncio em substituto da realização. A história de “País do futuro” hoje soa mais como um triste blefe, desacreditado e esvaziado de sentido, já que traído em sua essência.
O Brasil não precisa de novos panfletos prometendo paraísos. Precisa concluir as obras que ficaram pela metade, entregar as reformas adiadas, transformar projetos em realidade e fazer da palavra pública um compromisso, não uma peça de marketing. Um país que vive eternamente de promessas acaba produzindo gerações inteiras que já não acreditam nelas.
Talvez essa seja a principal lição deixada por aquela história contada na Alemanha para atrair imigrantes para cá. Quando a confiança desaparece, o maior blefe deixa de ser o do governo. Passa a ser o da própria ideia de futuro.
(Instagram: @edsonbundchen)