Segunda-feira, 24 de Agosto de 2026

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Não importa se você é rico, pobre, classe média ou está esperando o cartão virar para descobrir sua classe social naquele mês. Há coisas democráticas: impostos, boletos, parentes inconvenientes e bichos que querem beber o nosso sangue.

No cotidiano, dois são especialmente íntimos da humanidade: mosquitos e pulgas. Quem nunca foi infernizado por um mosquito durante a madrugada

Você apaga a luz.

— Zzzzzzzzz…

Acende. Nada…

Apaga novamente.

— Zzzzzzzzz…

Acende.

O bicho desapareceu!

Esses animais evoluíram. Antigamente, mosquito era amador. Pousava no braço, abria o restaurante, fazia a refeição tranquilamente e ainda demorava para levantar voo.

Hoje, não. Depois de frequentarem alguma espécie de escola Top Gun para pragas indomáveis, desenvolveram técnicas de ataque, camuflagem e evasão.

Mordem e somem. Quando você sente a coceira, o criminoso já atravessou três cômodos e provavelmente usa identidade falsa.

Com as pulgas, o problema é semelhante. Você pode limpar a casa até atingir um padrão digno de centro cirúrgico.

Não adianta… Se o gato ou cachorro escapa para a rua, você criou uma linha regular de transporte coletivo ligando o mundo exterior diretamente ao seu restaurante.

Porque, nesses casos, eles não são apenas animais de estimação. São ônibus…

Pulgas são uma espécie de proletariado da hematofagia. Dependem de transporte público. Pegam o primeiro gato ou cachorro que passa e desembarcam praticamente na porta da cozinha.

Já os mosquitos pertencem a outra categoria. São a classe executiva. Não precisam de ônibus. Chegam de jatinho particular.

Há anos, observo algo curioso. Minha mãe é O positivo. Eu sou A positivo. Quando estamos juntos, os mosquitos quase sempre preferem ela.

Podia haver dez pessoas numa parada de ônibus. Os miseráveis pareciam fazer uma reunião rápida e decidir:

— É aquela senhora ali!

E partiam em formação. Eu ficava praticamente ignorado. Depois descobri pesquisas sugerindo que o tipo sanguíneo pode ser um dos fatores dessa preferência.

Foi quando tudo começou a fazer sentido. Não estamos diante de simples parasitas, e sim de verdadeiros sommeliers. Passei a imaginar o universo gastronômico dessas criaturas.

Na calçada da minha casa, uma pulga de boné de motorista segura uma prancheta:

— Atenção, passageiros! Última chamada para a residência do jornalista Fabio L. Borges! Cardápio disponível a bordo!

O Fred, nosso gato, encosta. Portas abertas. As pulgas sobem. Algumas com malas.

— Tem ar-condicionado?

— Não, senhora. Mas tem restaurante no destino.

Todas entram.

Os mosquitos, evidentemente, não participam dessa confusão.

Executivos não utilizam transporte coletivo. Enquanto as pulgas sacolejam no ônibus, eles recebem relatórios sobre os moradores.

Imagino alguma central de informações:

*RESTAURANTE BORGES — CARDÁPIO DO DIA*

Opção 1: senhora, 77 anos, sangue O positivo, reserva especial.

Opção 2: jornalista, sangue A positivo, produto de consumo popular.

Recomendação da casa:

Opção 1.

Melhor relação entre sabor, quantidade e acesso.

Minha mãe seria um restaurante sofisticado.

Toalhas brancas. Luzes baixas. Garçons de gravata-borboleta.

Um mosquito pousaria sobre a pele enquanto outro aproximaria a taça do nariz:

— Safra excepcional.

— Concordo. Excelente estrutura.

— Notas de ferro?

— Evidentes.

— Persistência?

— Longa.

Eu seria o estabelecimento ao lado. Uma espécie de taberna de conveniência. Placa de plástico. Cadeira de bar.

Um mosquito entraria e perguntaria:

— É só isso?

— É o que temos, senhor.

Mas, talvez, o negócio seja ainda mais sofisticado. Talvez cada refeição nossa produza uma nova safra. Hoje, almoçamos carne assada, massa, aipim, arroz, feijão e salada.

Em algum laboratório clandestino, um mosquito especialista deve ter recolhido uma amostra, girado duas gotas numa taça minúscula e elaborado o boletim:

*SAFRA DO ALMOÇO*

Cabernet sanguíneo de médio corpo. Notas discretas de carne assada. Leve presença de alho. Traços de aipim. Final persistente de feijão.

Sugestão de harmonização: tornozelo humano à temperatura ambiente. O relatório circula imediatamente. As pulgas recebem pelo grupo de WhatsApp do transporte coletivo.

Os mosquitos executivos recebem em tablets. E começa o horário de pico.

— Senhores, a nova safra acaba de chegar.

Na seção VIP, minha mãe continua fazendo enorme sucesso.

— Temos O positivo, safra 77 anos.

— Reserva especial?

— Naturalmente.

— Uma mesa para quatro, por favor.

Do outro lado do salão, eu tento chamar atenção:

— Ei! Eu também tenho sangue!

O maître me observa.

— Sim, senhor. Sabemos.

E vira as costas.

Nunca imaginei que chegaria à idade adulta para ser humilhado até por uma pulga. No fim das contas, Darwin talvez tenha nos contado apenas uma parte da história. “A natureza não seleciona apenas os mais fortes. Também seleciona os mais saborosos.”

E você? Qual é o seu tipo sanguíneo? Ou devo dizer sabor?

* Fabio L Borges, jornalista e cronista gaúcho

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