Quarta-feira, 26 de Agosto de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 25 de agosto de 2026
Os Estados Unidos sob o governo de Donald Trump contribuíram para um aumento da impunidade global. É o que mostra o Atlas da Impunidade, relatório anual da Eurasia, empresa de análise e consultoria de risco. Segundo o ranking, além de derrubar sua própria posição em 2025, as medidas do governo americano tiveram impacto negativo para outros países.
O desmantelamento da Agência dos EUA para o Desenvolvimento (Usaid, na sigla em inglês) prejudicou nações como Geórgia, Ucrânia, Armênia, Haiti e Tunísia no combate à impunidade. Além da ajuda humanitária, a agência americana reforçava mecanismos de prestação de contas nos países auxiliados.
O governo americano, sob a liderança do Departamento de Eficiência Governamental (Doge) comandado pelo bilionário Elon Musk, cortou programas que promoviam a transparência na Nigéria, melhoravam os serviços públicos na Tanzânia, combatiam a corrupção na Ucrânia e Geórgia e fortaleciam processos eleitorais em países como Armênia, Haiti, Tunísia e Moldávia.
“Os EUA prejudicaram essa política de prestação de contas que no passado eles ajudaram a criar”, aponta Peter Ceretti, diretor do setor de Geoestratégia da Eurasia. “Será muito difícil substituir esse ecossistema global de ONGs e outras entidades que contribuíram nesse processo”.
Internamente, os fatores que pesaram contra os EUA foram a deterioração do ambiente de mídia e a divulgação de informações falsas pela Casa Branca. “O governo Trump concentrou uma grande quantidade de poder na presidência e muitas normas foram violadas”, disse Ceretti, em entrevista.
O Atlas da Impunidade mede a extensão em que uma pessoa comum, morando em cada país do mundo, vivencia a impunidade em cinco critérios: violação de direitos humanos, conflito e violência, exploração econômica, degradação ambiental e governança sem prestação de contas.
Em 2025, 172 países foram avaliados em uma escala de 0 a 100. As pontuações mais altas correspondem aos níveis mais elevados de impunidade, com a Síria na primeira posição. O Brasil ocupa o 75.° lugar.
Os EUA aparecem em 117.°, uma queda de seis posições com relação ao ranking anterior. Segundo o relatório da Eurasia, a falta de prestação de contas e exploração econômica impulsionaram esse declínio. A desconfiança de Trump em relação ao sistema eleitoral do país e o relacionamento turbulento com aliados e organizações internacionais sedimentaram a queda no índice.
“Trump usou a retórica de que os EUA estavam sendo prejudicados por todos para tomar decisões que romperam com as normas”, disse Ceretti. “Quando um dos países mais importantes do mundo diz a todos que ele não precisa mais se ater às regras, isso envia um sinal de que os outros também não precisam.”
De acordo com o índice, medidas como a atuação do ICE (polícia migratória dos EUA) em Minnesota, a política de deportações em massa, os negócios dos filhos de Trump e a caça às bruxas contra adversários políticos constituem claros atos de interesse próprio, extrapolação de competência legal e uma erosão dos mecanismos institucionais de freios e contrapesos históricos da política americana.
Além disso, os ultrarricos no país passaram a ter mais poder. Bilionários do setor de tecnologia, como Musk, Jeff Bezos e Mark Zuckerberg, se aproximaram da Casa Branca e ampliaram a sua influência.
“Existe um pequeno grupo de indivíduos extremamente ricos que exerce uma influência indevida”, destaca Ceretti, citando como exemplo o papel de Musk no Doge. “Ele se beneficiou de bilhões de dólares em contratos governamentais.”
O Atlas destaca que a impunidade nos EUA, e ao redor do mundo, tem crescido com o avanço dos ‘governos iliberais’. Esse conceito é usado para descrever democracias livres comandadas por líderes populistas que têm atuado para minar os alicerces do sistema democrático.
Segundo a Eurasia, o avanço desse cenário é alimentado pelo aumento do ceticismo em relação ao modelo de democracia liberal. “Após uma década de hegemonia liberal no período posterior à Guerra Fria, episódios como as guerras dos EUA no Iraque e no Afeganistão e a crise financeira de 2008 prejudicaram consideravelmente a credibilidade de Washington e de seus aliados”, aponta o índice.
Esses eventos impulsionaram um maior questionamento sobre a economia de livre mercado, a lógica de segurança liderada pelos EUA e a credibilidade das instituições democráticas.
“Líderes autocratas e movimentos iliberais ao redor do mundo canalizaram insatisfações legítimas para popularizar argumentos contra liberdades econômicas, mecanismos de freios e contrapesos e proteção a minorias”, destaca o Atlas da Impunidade.
Outro fator que tem aumentado a impunidade é a chamada revolução tecnológica. A pesquisa ressalta que o surgimento de plataformas digitais e redes sociais revolucionou a maneira como as pessoas se comunicam e trabalham, mas também ampliou as ferramentas disponíveis para atos de impunidade.
“Os regimes mais repressivos do mundo utilizam esquemas online e plataformas de criptomoedas para cometer fraudes, ocultar recursos e burlar sanções”, mostra o relatório da Eurasia. Com informações do portal Estadão.