Sexta-feira, 24 de Abril de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 24 de abril de 2026
Os governos de Brasil e EUA acabam de fechar um acordo de cooperação para intensificar o combate ao crime organizado transnacional, numa demonstração de que, quando o pragmatismo impera, é maior a chance de colher bons frutos.
O acordo envolve ações que miram a interceptação de cargas de armamentos e drogas transportadas ilegalmente entre os dois países, bem como a adoção de um programa de compartilhamento de informações em tempo real.
Do lado brasileiro, o acordo foi encabeçado pela Receita Federal; pelo americano, responde a U.S. Customs and Border Protection (CBP), a agência de fronteiras dos EUA. De acordo com o Ministério da Fazenda, pasta à qual a Receita Federal é subordinada, a construção da agenda conjunta teve início em janeiro de 2026, após um encontro em Foz do Iguaçu, no Paraná.
Isoladamente, é óbvio, o acordo não é uma bala de prata para resolver o cada vez mais complexo problema do crime organizado transnacional, até porque não existe uma solução única e infalível para acabar com uma atividade cada vez mais sofisticada e internacionalizada.
Pesquisadores, contudo, avaliam a cooperação como positiva, sobretudo em relação ao combate ao tráfico de armamentos, uma vez que parte das armas apreendidas em território brasileiro é de origem americana.
Há que destacar ainda que o acordo ocorre em momento tenso na relação entre os dois países. Como se sabe, a gestão Donald Trump vem sinalizando que pretende classificar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas, tal como já fez com outros grupos criminosos da América Latina.
Apesar de aterrorizarem a vida da população, nem o CV nem o PCC são grupos terroristas, uma vez que não se pautam por objetivos políticos ou ideológicos. Ademais, tratar as máfias brasileiras como terroristas pode até mesmo inibir a troca de informações entre Brasil e EUA, na contramão do acordo recém-assinado.
Além disso, uma potencial designação do CV e do PCC como terroristas pode resultar em sanções financeiras que afetam pessoas e empresas não diretamente envolvidas com tais organizações.
Como o governo Lula é contra uma mudança na classificação dos EUA em relação ao CV e ao PCC, parte da oposição resolveu fazer coro à proposta de Trump, esperando capitalizar a linha dura contra a criminalidade embutida na iniciativa americana e, ao mesmo tempo, vincular ao governo petista a imagem de defensor de criminosos.
O governo petista, por sua vez, errou feio ao transformar a detenção nos EUA do ex-deputado Alexandre Ramagem num espetáculo midiático. Tudo o que conseguiu foi a expulsão de um delegado da Polícia Federal que até então trabalhava em solo americano, o que definitivamente em nada ajuda a relação entre Brasil e EUA.
Ações efetivas contra a criminalidade exigem mais pragmatismo do que gritaria. Tanto oposição quanto governo precisam baixar o tom, evitando tanto o alinhamento quanto a crítica automática a Trump. Que o acordo entre a Receita e a CBP seja um norte. (Opinião/jornal O Estado de S. Paulo)