Quarta-feira, 15 de Julho de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 15 de julho de 2026
A mistura de etanol à gasolina faz parte da política energética brasileira há mais de nove décadas e surgiu muito antes da atual preocupação com a redução das emissões de gases de efeito estufa. A obrigatoriedade começou na década de 1930, ganhou força durante a crise internacional do petróleo nos anos 1970 e transformou o Brasil em uma das principais referências mundiais no uso de biocombustíveis.
O primeiro marco da política ocorreu em 1931, quando o governo de Getúlio Vargas determinou que a gasolina importada deveria conter uma proporção de álcool produzido no país. A medida tinha como objetivo reduzir a dependência de combustíveis importados e criar um novo mercado para a produção nacional de cana-de-açúcar, setor que enfrentava dificuldades econômicas. Ao longo das décadas seguintes, o percentual de mistura foi alterado diversas vezes conforme a disponibilidade de etanol e as condições do mercado de combustíveis.
A estratégia ganhou importância após a primeira crise do petróleo, em 1973, quando os países produtores restringiram a oferta e provocaram uma forte alta dos preços internacionais. Como o Brasil importava grande parte do petróleo que consumia, o aumento dos custos elevou os gastos externos e pressionou a economia.
Em resposta, o governo federal lançou em 1975 o Programa Nacional do Álcool (Proálcool), considerado um dos maiores programas de incentivo aos biocombustíveis já implementados no mundo. A iniciativa ampliou a produção de etanol, estimulou investimentos em usinas e incentivou as montadoras a desenvolver veículos movidos exclusivamente pelo combustível renovável.
Durante os anos seguintes, milhões de automóveis abastecidos apenas com etanol passaram a circular no país. Apesar de enfrentar dificuldades de abastecimento no fim da década de 1980, o programa deixou um legado que seria retomado nos anos 2000 com a chegada dos veículos flex, capazes de funcionar tanto com gasolina quanto com etanol em qualquer proporção.
Além de reduzir a dependência do petróleo, o uso do etanol passou a ser associado à diminuição das emissões de gases de efeito estufa. Por ser produzido a partir da cana-de-açúcar, o combustível renovável apresenta uma pegada de carbono inferior à da gasolina ao longo de seu ciclo produtivo, característica que fortaleceu sua importância nas políticas de transição energética.
Atualmente, a legislação brasileira estabelece um percentual obrigatório de mistura de etanol anidro à gasolina, definido pelo governo federal dentro dos limites previstos em lei. Neste ano, o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovou o aumento da mistura obrigatória de 27% para 30%, percentual que deverá entrar em vigor após a conclusão dos procedimentos técnicos e regulatórios necessários para sua implementação.
Segundo o governo, a ampliação da mistura deve reduzir a necessidade de importação de gasolina, fortalecer a cadeia produtiva da cana-de-açúcar, estimular investimentos no setor de biocombustíveis e gerar empregos no campo e na indústria. A expectativa também é de redução nas emissões de carbono e maior segurança energética, ao diminuir a exposição do país às oscilações do mercado internacional de petróleo.
Hoje, a política de mistura obrigatória é considerada um dos pilares da matriz energética brasileira. O país reúne uma das maiores produções mundiais de etanol, conta com uma ampla frota de veículos flex e mantém uma estrutura consolidada para produção e distribuição do biocombustível, resultado de uma estratégia iniciada há mais de 90 anos e fortalecida pelas transformações do mercado global de energia.