Segunda-feira, 28 de Setembro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 27 de setembro de 2026
Quando surgiu a “pílula azul do homem”, um fármaco chamado sildenafil, uma revolução aconteceu. Aprovado em 1998, o medicamento foi o primeiro comprimido oral para tratar a disfunção erétil. Em um único mês, os médicos americanos prescreveram mais de meio milhão de receitas. O assunto, que era tabu até então, entrou na pauta mundial e o remédio virou fenômeno pop.
No século 21, o novo fenômeno farmacológico são os agonistas de GLP-1, no popular, as canetas emagrecedoras. Uma das marcas se tornou o medicamento mais vendido do mundo em 2026. E o sucesso é ainda maior que o do Viagra: o que a pílula azul faturava em um ano no auge, a caneta mais famosa fatura em uma semana.
Com o sonho de ser magro tornado acessível a quem pode pagar pelo uso estético das canetas, surgiu uma nova “editoria” na imprensa e nas redes: a dos famosos que perderam peso.
É impressionante. Todo dia há notícia de alguém que emagreceu 10 kg, 20 kg, 30 kg, 100 kg. E, como antes acontecia com o sildenafil, muitos usam a tirzepatida às escondidas e, publicamente, atribuem o resultado a uma “mudança de dieta combinada com exercícios físicos”. Cada um é livre para fazer o que quiser, inclusive para omitir os medicamentos que consome.
A novidade é que, seja qual for o método, quem emagrece hoje se transforma em celebridade. Veja o caso de Jojo Todynho. Ela era cantora (nem sei se ainda é) e participou de reality shows por ser polêmica. Mas foi ao decidir emagrecer que seu nome passou a aparecer diariamente nas notícias. O Brasil acompanhou, praticamente, quilo a quilo, o seu processo de emagrecimento.
Com Thais Carla, o padrão se repete. Ela participou do Se Vira nos 30, mas ganhou notoriedade mesmo como dançarina da cantora Anitta, no auge do ativismo contra a gordofobia, quando o movimento “body positive” ainda era forte, antes de praticamente desaparecer com a chegada da semaglutida e de outros agonistas de GLP-1. Antes, ela só era mencionada quando surgia alguma polêmica. Hoje, cada etapa do seu emagrecimento vira notícia.
Outro nome em destaque é o Gordão da XJ, criador de conteúdo que ficou famoso ao compartilhar sua rotina de perda de peso extrema. Sidney, seu nome real, convivia com a obesidade desde a infância e chegou a pesar quase 350 kg, uma questão de saúde, não de estética. Depois de perder 130 kg, ele e a noiva tentam engravidar e, por isso, estão nas manchetes.
É compreensível que mudanças tão extremas despertem interesse público. E também que famosos que usaram as canetas, como Wesley Safadão, Gominho, Luiza Possi, Zé Felipe, Silvia Abravanel, Viih Tube e Fabiano Menotti, falem abertamente sobre isso, influenciando seus fãs e gerando ainda mais notícias sobre os quilos perdidos.
O problema é que a obsessão da nossa sociedade pela magreza virou obsessão por acompanhar quem emagrece, e, nesse processo, quase não sobra espaço para perguntar o que nos faz engordar. Por que comemos quando não temos fome. Por que descontamos frustrações emocionais na comida, como naquelas cenas clássicas de alguém decepcionado no amor, jogado na cama, comendo sorvete direto do pote.
Cada pessoa tem o direito de buscar o corpo que quiser, pelo método que puder pagar. Mas vale lembrar que há mais na vida do que aparência. E que a obsessão por um corpo perfeito também pode custar caro à saúde mental.
Há mais de 2.500 anos, os gregos já ensinavam que a virtude está no equilíbrio, e que o melhor lema é sempre “nada em excesso”. Talvez seja um bom conselho para seguir enquanto não surge um medicamento para curar a curiosidade sobre a vida alheia.