Quinta-feira, 18 de Agosto de 2022

Home Economia Taxa Selic pode seguir alta se os gastos públicos crescerem

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Uma Selic (taxa básica de juros) de dois dígitos pode se tornar mais persistente do que o mercado financeiro espera hoje. Na análise do economista-chefe do Itaú Unibanco, Mario Mesquita, esse pode ser o cenário caso o presidente eleito neste ano estimule o crescimento dos gastos públicos.

Na semana passada, o Banco Central elevou a Selic para 10,75%, chegando a dois dígitos pela primeira vez em quatro anos e meio. “Se voltarmos a ter uma trajetória forte de crescimento sustentado do gasto público, vamos viver com taxa de juros mais alta”, diz Mesquita.

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista com Mesquita:

1) A previsão do Itaú para o PIB deste ano é de queda de 0,5%. Em janeiro, tivemos o problema da seca, prejudicando o agronegócio. Diante disso, já há um viés negativo para o -0,5?

De fato, tem notícias piores de safra por conta do clima, mas teve alguns indicadores de atividade do fim do ano passado que vieram melhores que o esperado. Então, talvez o ponto de partida seja um pouco melhor do que projetado anteriormente. Isso compensa por ora a frustração associada ao clima. Quando olhamos para 2022 como um todo, vemos riscos simétricos. Um desses é se a política monetária tiver de continuar subindo a taxa de juros.

O BC sinalizou desaceleração no ritmo do aperto. Isso aponta para taxa de juros mais próxima de 12% do que de 13%. Se tiver de subir mais para 13%, aí o PIB ficaria pior, entre -0,5% e – 1%. Outro risco de baixa é a Ômicron. Se a variante afetar a mobilidade, o PIB poderia cair mais 0,2 ponto porcentual. No lado positivo, poderia ter aceleração de gastos de governo subnacionais. Se eles resolverem gastar mais, poderia dar mais 0,5 ponto porcentual para o PIB.

A produção de veículos está muito volátil, mas, se normalizasse, veríamos uma alta de mais 0,2 ponto porcentual. Finalmente, o IDAT (índice diário de atividade econômica, indicador do Itaú) de serviços está rodando melhor que a pesquisa de serviço do IBGE. Se estivermos certos, teríamos mais 0,3 ponto porcentual. Somando todos os riscos, terminamos com número muito próximo do -0,5%.

2) Essa questão da seca pode pressionar a inflação ainda mais?

Pode. Subimos recentemente a projeção deste ano de inflação de 5% para 5,3% por várias razões, mas um fator foi a pressão nesse segmento. O risco continua. Temos visto algumas revisões de redução da safra brasileira de soja, que é fundamental para toda a cadeia do agro. Consideramos que a alta das commodities agrícolas pode jogar algo como 0,1 ou 0,2 ponto porcentual na inflação deste ano.

3) Como o sr. avalia a atuação do BC até agora?

O BC está fazendo o que prevê o regime de metas. Houve um choque inflacionário muito grande em 2021. O BC reagiu subindo o juro. É uma alta expressiva do juro nominal e do real, que vai ter efeito contracionista na atividade. A forma de reduzir a inflação é usando política monetária. A tendência é que funcione. É a política adequada. Ninguém comemora alta de juros, mas não tem alternativa. Viver com inflação não é possível. Tentamos na década de 60 e 70 e deu muito errado.

4) Quão preocupante é o cenário internacional, com a tendência de alta global dos juros?

A maioria dos BCs está subindo taxa de juros, se preparando para subir ou reduzindo estímulos quantitativos. O Banco Central Europeu mudou o tom. Antes, o tom era o de acreditar no caráter transitório da inflação. Agora, está vendo com mais cautela. O Banco da Inglaterra, nesta semana, subiu a taxa de juros como se esperava, mas há um debate no comitê para subir até mais rapidamente.

Nos Estados Unidos, a discussão migrou primeiro de se sobe ou não a taxa neste ano para se sobe duas ou três vezes. Agora já é se sobe sete vezes, em todas as reuniões que se tem no ano. Como a nossa taxa de juros já está elevada, o impacto dessa mudança de postura no exterior talvez não seja tão severo assim.

Em um cenário em que os aumentos nos EUA vão de 0,25 ponto em 0,25, acho que o mercado pode digerir. Se forçar a acelerar, vai ter um período de estresse. De qualquer forma, já é suficiente para que o real não tenha uma perspectiva grande de apreciação neste ano. Observamos que a moeda tem se fortalecido, mas não vemos potencial para isso durar o ano inteiro tendo em vista o que deve acontecer com a política monetária nos países centrais. Vemos o real terminando 2022 perto do que terminou em 2021.

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