Terça-feira, 08 de Setembro de 2026

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Quando o diálogo virou disputa, o beijo entrou em recesso, o sexo pediu férias e até o silêncio passou a ter indireta. Aí alguém finalmente diz: “Acho que a gente precisa procurar ajuda”.

É curioso como cuidamos de tantas coisas antes que elas quebrem, mas, quando o assunto é relacionamento, ainda existe uma certa cultura do “vamos levando”.

O carro faz um barulho estranho? Levamos ao mecânico.

O computador começa a travar? Procuramos assistência técnica.

O corpo dá sinais de que alguma coisa não vai bem? Marcamos consulta.

Mas o casamento começa a apresentar pequenos ruídos e pensamos: “Isso passa”.

Nem sempre passa. Às vezes, acumula.

Começa com uma conversa que ficou para depois. Depois, outra. Uma mágoa que não foi elaborada. Um pedido de desculpas que nunca chegou. Um casal que continua dividindo a mesma cama e a mesma rotina, mas já não divide tanta intimidade.

E o problema é que ressentimento também tem memória. Ele vai fazendo pequenas anotações.

“Naquela vez você não me ouviu.”

“Naquele dia você preferiu o celular.”

“Quando eu precisei de você, você não percebeu.”

“Eu já tentei conversar.”

Até que um dia, o casal se senta diante do terapeuta carregando dez anos de assuntos que começaram, muitas vezes, com coisas aparentemente pequenas.

Por isso, terapia de casal não deveria ser vista como uma espécie de UTI do relacionamento. Pode ser revisão. Pode ser prevenção. Pode ser um espaço para aprender a conversar antes que o diálogo se transforme em campo de batalha.

Pode ser o lugar onde duas pessoas que ainda se amam descobrem que estão se machucando sem perceber. E não, procurar terapia não significa que o casamento fracassou. Às vezes, significa justamente o contrário: que aquele relacionamento importa o suficiente para ser cuidado.

Aliás, existe uma ideia que precisamos abandonar: a de que casal que faz terapia é casal com problema. Todo casal tem problemas.

A diferença está, muitas vezes, naquilo que cada um faz quando eles aparecem. Alguns varrem para baixo do tapete. Outros transformam tudo em briga. Há quem se cale. Há quem ameace ir embora a cada discussão.

E há quem perceba que amadurecer também significa reconhecer: “Sozinhos, talvez estejamos repetindo os mesmos caminhos. Precisamos aprender outro”.

Isso não é fraqueza. É responsabilidade afetiva. Porque casamento não sobrevive apenas de amor. Precisa de comunicação, admiração, intimidade, capacidade de reparar, disposição para rever comportamentos e coragem para olhar para aquilo que está deixando de funcionar.

Talvez a terapia de casal não precise entrar em cena somente quando alguém já está fazendo as malas. Ela pode chegar muito antes. Quando ainda existe carinho. Quando ainda existe desejo de entender. Quando ainda há vontade de reconstruir pequenas pontes antes que o abismo fique grande demais.

Porque algumas relações não terminam por falta de amor. Terminam por falta de cuidado. E, talvez, essa seja uma das maiores confusões dos relacionamentos adultos: acreditar que amar alguém é suficiente para saber cuidar desse amor. Não é.

Assim como o corpo precisa de cuidados antes de adoecer, relações também precisam de atenção antes de entrar em colapso. Então, se vocês estão bem, ótimo.

Mas não esperem necessariamente ficar mal para aprender a ficar melhor. Terapia de casal também pode ser manutenção. Prevenção. Amadurecimento.

Porque casamento não precisa esperar o incêndio para descobrir onde está o extintor.

Até a próxima consulta.

* Tatiane Scotta, psicóloga, sexóloga e palestrante

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