Quarta-feira, 23 de Setembro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 23 de setembro de 2026
A incomunicabilidade e o desgaste silencioso das relações afetivas costumam encontrar no cinema um terreno fértil para investigações profundas. No drama “Três Vezes Adeus” (Tre ciotole), a diretora Isabel Coixet escolhe justamente o desgaste sutil para expor o estrago acumulado de anos em um relacionamento. A história não precisa de grandes tragédias externas, pois parte do cotidiano banal para mapear as ruínas de uma vida a dois, investigando a dor do término, o luto emocional e os atalhos estranhos que a mente inventa para não sucumbir ao vazio.
Tudo começa com uma briga boba entre Marta (Alba Rohrwacher), professora de Educação Física, e Antonio (Elio Germano), dono de uma pizzaria. É um atrito desencadeado por uma bobagem menor do dia a dia, mas funciona como a fagulha que faltava. Em questão de minutos, a discussão ganha uma escala desproporcional e explode anos de sentimentos sufocados e pequenas mágoas guardadas. O desfecho verbal é devastador e inevitável com a separação definitiva do casal. A cena captura essa mecânica das grandes brigas domésticas, onde o motivo original é mero pretexto para que as barreiras venham abaixo. O que realmente vem à tona são as verdades incômodas e aquele ressentimento antigo, amadurecido em silêncio ao longo de anos de convivência.
Consumado o rompimento, o filme passa a expor o retrato doloroso de uma solidão consentida. Incapaz de processar o fim de imediato, Marta simplesmente nega o mundo exterior, fecha as portas e mergulha em uma introspecção profunda. Esse recolhimento funciona como um luto necessário, mas também opera como uma armadura de proteção contra o ambiente externo e as cobranças sociais que exigem uma superação rápida e performática.
É no meio desse cenário de isolamento que surge um dos elementos mais simbólicos do longa. Para dar conta do silêncio da casa, Marta passa a buscar alento e conforto na figura inanimada de um display de papelão em tamanho real de um ídolo do K-pop, recolhido do lixo. O que a princípio parece uma excentricidade bizarra logo ganha uma função terapêutica crucial. O totem vira um interlocutor silencioso para suas angústias, sendo uma companhia que não julga, não cobra e, acima de tudo, não vai embora. É difícil não lembrar de Náufrago, onde o personagem de Tom Hanks projeta humanidade na bola de vôlei Wilson para manter a sanidade na ilha deserta. O display de papelão é, para todos os efeitos, o “Wilson” de Marta, funcionando como uma âncora simbólica para não afundar no oceano da desolação.
Conforme a narrativa avança, a dor do término esbarra em uma camada ainda mais sutil, que é a presença da finitude. A morte não aparece como um evento espetacular, mas como uma sombra existencial que acompanha seus passos. Ver o amor ruir espelha a própria finitude da vida e obriga Marta a confrontar a impermanência de tudo o que a cerca. Nesse ponto, o filme amarra seu tema central focado no desapego. Despedir-se aqui não é só ver o outro ir embora, mas envolve abrir mão das expectativas frustradas e daquela versão de si mesma que só existia dentro do casamento. A aceitação surge não como resignação passiva, mas como um processo doloroso e indispensável para tornar o presente suportável outra vez.
“Três Vezes Adeus” pode exigir alguma paciência por conta do ritmo lento e contemplativo do início, e vez ou outra esbarra em convenções do melodrama. No entanto, o filme supera esses clichês ao retratar um retrato íntimo, maduro e sincero dos sentimentos da sua protagonista. A mensagem do desfecho mostra que só nos encontramos quando nos permitimos estar perdidos. Ao fazer esse balanço honesto e redescobrir sua soberania como mulher, a obra lembra que encarar a própria sombra, sem atalhos, costuma ser o único jeito de se reencontrar.
* Jorge Ghiorzi, crítico de cinema (jghiorzi@gmail.com)