Sexta-feira, 11 de Setembro de 2026

Home Variedades Uso de medicamentos contra obesidade por conta própria acende alerta ne saúde pública

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O uso de medicações para obesidade compradas pela internet ou importadas com procedência duvidosa e aplicadas por conta própria virou um problema de saúde pública.

O alerta não é sobre uma determinada faixa etária. Vale para o adulto que quer perder quatro quilos antes de uma festa; para o adolescente com questões inerentes à idade e, no extremo mais grave, para a criança obesa que recebe uma injeção sem nenhuma indicação.

O que une esses casos não é idade nem necessidade: é a ausência do que é necessário em qualquer tratamento seguro de saúde: diagnóstico, prescrição, procedência e acompanhamento.

Vale começar pelo entendimento do que esses remédios de fato são. Os análogos de GLP-1, como a semaglutida e a liraglutida, imitam um dos hormônios que o próprio corpo produz no intestino para estimular a produção de insulina. A tirzepatida, mais recente, simula o GLP-1 e também o GIP (Peptídeo Insulinotrópico Dependente de Glicose), que tem função semelhante.

Todas essas substâncias sintéticas reduzem o apetite, aumentam a saciedade e ajudam a controlar a ingestão alimentar. São tratamentos legítimos para uma doença crônica, a obesidade, que tem base biológica —não é uma questão de força de vontade.

Tratar a obesidade como fraqueza de caráter ou falta de vaidade é parte do que nos trouxe até aqui. O estigma empurra as pessoas para soluções rápidas e escondidas, no contrabando ou pela internet, em vez de recorrerem ao cuidado de um profissional de saúde. Reconhecer a obesidade como doença é o que separa o uso responsável de remédios eficazes do improviso perigoso.

Em adultos, o programa de estudos STEP mostrou perda média de cerca de 15% do peso corporal com a semaglutida, e os estudos SURMOUNT chegaram a cerca de 20% com a tirzepatida. É um avanço real, e é justamente por serem eficazes que esses medicamentos merecem respeito, e não a sua banalização. Ser legítimo, no entanto, não significa que seu uso é livre e irrestrito.

Todo medicamento eficiente tem indicação, dose, contraindicação e efeitos adversos. E é exatamente isso que se perde quando uma substância assim vira produto de balcão.

Caixa de surpresas

O primeiro risco dos medicamentos adquiridos sem prescrição médica é o de não haver procedência. Uma medicação trazida na mala, sem registro na Anvisa e sem controle de transporte e armazenamento, não oferece segurança sobre o que há dentro dela.

A pessoa não sabe a dose real que aplica, nem se o frasco corresponde ao rótulo. O mesmo vale para versões manipuladas vendidas sem o devido controle: sem rastreabilidade, não há como assegurar dose nem pureza. Nenhum benefício justifica esse risco.

O segundo risco é a automedicação. Prescrever esses medicamentos exige um passo que a compra pela internet pula: o diagnóstico. É preciso avaliar se há de fato indicação, rastrear contraindicações, ajustar a dose de forma gradual e acompanhar a resposta.

O acompanhamento não termina na primeira receita: envolve reavaliar tolerância, resposta e manutenção ao longo do tempo. Sem isso, efeitos gastrointestinais como náusea e vômito ficam sem manejo, e condições que desaconselham o uso passam despercebidas.

Fora efeitos colaterais graves que podem aparecer, como pancreatites, infecções nos locais de punção ou sistêmicas e mesmo hipoglicemia severa, pela falta de controle na purificação da molécula ou maior concentração do princípio ativo do que está descrito no rótulo.

É aqui que entra a indicação clínica, que existe e é mais estreita do que a propaganda sugere. Em adultos, a indicação formal é para obesidade associada a uma complicação relacionada ao peso e sempre acompanhada de mudanças no estilo de vida. Não é para quem quer perder alguns quilos por estética.

É oportuno fazer uma distinção que ajuda a entender quando tratar. O The Lancet Diabetes & Endocrinology publicou, no início de 2025, um parecer que estabelece novas formas de diagnóstico para o tratamento da obesidade, separando os pacientes, de acordo com a gravidade da doença, em dois grupos: obesidade clínica e pré-clínica.

Na obesidade clínica, o excesso de gordura já compromete a função de órgãos e tecidos ou limita as atividades do dia a dia. É uma doença instalada, e tem indicação de tratamento imediato. Na obesidade pré-clínica, ainda não há essa disfunção, mas existe risco aumentado.

Nesse caso, o acompanhamento médico é obrigatório, e o tratamento pode estar indicado dependendo do risco que aquele excesso de peso impõe à saúde da pessoa. Em nenhum dos cenários, porém, a resposta é um medicamento sem aprovação, comprado por conta própria. Com informações da Folha de S. Paulo.

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