Domingo, 06 de Setembro de 2026

Home Colunistas 7 de Setembro: a independência que ainda precisamos construir

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Sete de Setembro é uma data que carrega uma simbologia que vai muito além do episódio histórico às margens do Ipiranga. É o dia em que o Brasil celebra sua Independência, mas também uma boa oportunidade para refletirmos sobre o que significa, afinal, sermos uma nação. Em 1822, o Brasil rompeu politicamente com Portugal. Mas a independência de um país não termina quando se rompe um vínculo de dependência. Ela é construída todos os dias pela capacidade de um povo conduzir seu próprio destino, respeitar suas diferenças e assumir responsabilidades pelo futuro coletivo.

E talvez seja justamente por estarmos vivendo tempos tão difíceis que o 7 de Setembro tenha hoje um significado ainda maior. A polarização tomou conta do nosso cotidiano. O debate público muitas vezes deixou de ser uma busca por soluções para transformar-se em uma disputa para saber quem está certo e quem deve ser derrotado. As instituições, que deveriam servir ao conjunto da sociedade, são frequentemente percebidas como distantes do cidadão e, em vários momentos, utilizadas em benefício de poucos e poderosos. Quando isso acontece, a confiança começa a desaparecer.

E confiança é um dos principais fundamentos de uma democracia. É preciso reconhecer que o Brasil possui instituições importantes e uma sociedade capaz de corrigir seus próprios caminhos. Mas também precisamos ter maturidade para admitir quando algo não está funcionando bem. Uma democracia saudável não é aquela em que tudo está perfeito; é aquela que permite que seus erros sejam discutidos, corrigidos e superados dentro das regras.
É aí que entra a civilidade.

Civilidade não significa pensar todos da mesma maneira. Significa compreender que somos diferentes, mas pertencemos à mesma nação. O brasileiro que pensa diferente de mim continua sendo brasileiro. Tem os mesmos direitos, as mesmas responsabilidades e o mesmo direito de desejar um país melhor.

O primeiro pilar da civilidade é o respeito. Respeitar não significa concordar. Significa reconhecer no outro o direito de existir, pensar e se manifestar. Quando transformamos o adversário em inimigo, abrimos mão da possibilidade de construir qualquer coisa juntos. O segundo é a responsabilidade. Temos direitos, mas também deveres. Podemos cobrar dos governos e das instituições, mas precisamos também cumprir as leis, cuidar dos espaços públicos, preservar o ambiente, combater a desinformação e participar da sociedade.

O terceiro pilar é o diálogo. Uma sociedade que deixa de conversar começa a gritar. E quando todos gritam, ninguém escuta. O diálogo não exige que abandonemos nossas convicções, mas que tenhamos disposição para ouvir e compreender que nenhuma pessoa ou grupo possui sozinho todas as respostas.

O quarto é a tolerância. O Brasil é plural. Somos diferentes em nossas histórias, culturas, crenças, escolhas e visões de mundo. Essa diversidade não deveria nos separar. Ao contrário, deveria ser uma das nossas maiores forças.
E existe ainda o pertencimento. Talvez seja o pilar que mais precisamos recuperar. Somos uma nação. Não somos apenas grupos disputando espaço, torcidas políticas ou lados opostos de uma mesma discussão. Temos um território, uma história e um futuro em comum.

Não podemos ignorar que muitos brasileiros têm buscado construir suas vidas fora do país. São pessoas que, por diferentes razões, perderam parte da confiança de que aqui encontrarão as condições que desejam para viver, trabalhar e criar seus filhos. Quando alguém deixa seu país porque já não acredita que nele possa construir seu futuro, isso deveria provocar uma reflexão. Não de julgamento, mas de responsabilidade.

O Brasil precisa voltar a ser um país em que as pessoas queiram permanecer, empreender, trabalhar, criar seus filhos e participar da construção do futuro. Por isso, bandeira, hino e desfile possuem importância. Os símbolos nacionais nos lembram que existe algo que compartilhamos apesar de todas as nossas diferenças. Mas símbolos só ganham verdadeiro significado quando são acompanhados por atitudes. Neste 7 de Setembro, talvez a melhor maneira de celebrar a Independência seja compreender que ela não terminou em 1822.

Continuamos construindo nossa independência quando fortalecemos a democracia, cobramos instituições responsáveis, respeitamos quem pensa diferente e recusamos a ideia de que o Brasil possa pertencer apenas a alguns.
O Brasil é de todos nós. E, em tempos de tanta divisão, talvez essa seja a lembrança mais importante que o 7 de Setembro pode nos oferecer: podemos discordar de quase tudo, mas ainda temos uma coisa fundamental em comum — somos uma nação.

– Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética
Contato: rena.zimm@gmail.com

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