Segunda-feira, 21 de Setembro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 21 de setembro de 2026
Toda escola tem suas lendas. Tem o professor carrasco. O diretor que ninguém sabe se algum dia sorriu. O aluno que repetiu tantas vezes que parece fazer parte do patrimônio histórico do prédio.
E tem ela. A professora bonitona…
A ideia surgiu por causa de uma amiga que hoje é professora. Uma bela mulher, ex-Garota Verão e Garota Gaúcha, com presença suficiente para ser notada ao entrar numa sala.
Brinquei com ela, com a intimidade que temos, dizendo que havia entrado oficialmente para essa categoria histórica das professoras que povoam o imaginário dos alunos.
Ela riu… E foi aí que me lembrei da minha.
Se não me falha a memória, chamava-se Maria Inês. Professora de matemática. Anos 70.
Maria Inês tinha cintura fina, quadris largos, um jeito feminino e elegante e usava aquelas calças jeans apertadas que, para um menino começando a descobrir o mundo, não ajudavam muito na concentração.
Ela escrevia números no quadro negro. Eu tentava prestar atenção. Tentava…
Talvez, esteja aí a explicação para eu nunca ter aprendido matemática direito. Mas não era apenas uma questão de beleza. Algumas eram lindas; outras, charmosas, com um sorriso ou um jeito capaz de transformar qualquer adolescente em poeta.
Naquela idade não existe meio-termo. A professora não é simplesmente bonita. Ela é a mulher mais bonita da história da humanidade.
Cleópatra? Superestimada.
Brigitte Bardot? Até que era interessante.
Mas a professora entrando na sala com o diário de classe debaixo do braço?
Aí, estamos diante de uma divindade. E nasce o serviço secreto da escola.
— Tu já viste a professora nova de português?
— Qual?
— A da sétima.
Pronto.
Em menos de um recreio, a informação percorreu corredores e pátios numa velocidade que nenhuma circular da direção jamais conseguiu alcançar.
E não era necessariamente vulgaridade. Era encantamento. A adolescência transforma determinadas pessoas em musas.
Eu mesmo chegava a gastar o dinheiro do lanche comprando um refrigerante para a professora. Não era suborno.
Minhas notas são a prova documental de que a estratégia jamais funcionou. Talvez, existisse naquela cabeça juvenil um projeto: “Quando eu crescer, quero casar com uma mulher assim”.
Não igual fisicamente, mas charmosa daquele jeito. Daquelas pessoas que dão vontade de ficar por perto e, na fantasia inocente de um garoto, até pegar no colo e sair carregando pelo mundo.
Muitas também eram adoradas pelas meninas. Beleza chama atenção, mas não explica sozinha por que alguém se torna inesquecível. Algumas tinham simplesmente presença.
Daquelas que entram numa sala e mudam o ambiente sem precisar fazer esforço. E, provavelmente, percebem muito mais do que imaginamos.
Aliás, pensando bem, essas “miserávi” nunca esquecem da gente… E você tenta entender como alguém que ensinou centenas de alunos ainda lembra do sujeito que mal conseguia resolver uma equação.
Professor tem dessas coisas. Será que elas sabiam o efeito que provocavam? Imagino que sim.
Devem reconhecer o silêncio repentino quando entram na sala, o aluno que nunca fazia trabalho e aparece com tudo pronto, o sujeito que odiava segunda-feira e começa a chegar cedo porque determinada professora dá aula no primeiro período.
Há professores que despertam vocações. E há aqueles que simplesmente despertam vontade de estar na escola. Pode parecer pouco. Não é.
Se um adolescente preguiçoso toma banho, penteia o cabelo e sai de casa numa manhã fria porque sabe que determinada professora estará dando aula, alguma coisa já aconteceu.
No caminho, quem sabe, ele aprende alguma coisa. No meu caso, infelizmente, a matemática não pode ser apresentada como evidência científica dessa teoria.
Maria Inês tentou. Tenho certeza de que tentou…
Décadas depois, talvez eu não resolva certas contas sem calculadora, mas ainda lembro daquela professora. Da presença. Do charme. Da beleza.
Hoje, se a encontrasse, gostaria de abraçá-la e dizer:
— Professora, talvez a senhora não lembre de mim.
Ela provavelmente responderia:
— Fabio? Claro que lembro.
Porque essas “desgraçadas” lembram.
Então, eu confessaria:
— Fui seu aluno de matemática. A senhora tentou. Juro que tentou.
Porque algumas pessoas nos ensinam pelo conteúdo. Outras, sem imaginar, tornam-se personagens definitivos da nossa juventude.
Musas involuntárias de um tempo em que uma paixão podia durar uma eternidade e bastava determinada pessoa entrar pela porta para transformar uma aula comum no acontecimento mais importante daquela manhã.
A matemática eu não aprendi. Mas Maria Inês me deixou uma conta que até hoje não consegui fechar: como alguém pode passar tão rapidamente pela nossa vida e ocupar tanto espaço na memória?
Talvez, essa seja uma daquelas equações que não existem para serem resolvidas.
* Fabio L. Borges, jornalista, cronista e poeta gaúcho