Segunda-feira, 21 de Setembro de 2026

Home Colunistas Teremos um novo 8 de Janeiro se Lula vencer?

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Nas últimas eleições presidenciais, com a vitória de Lula, cerca de 4 mil apoiadores do candidato derrotado, o ex-presidente Jair Bolsonaro, protagonizaram desde a redemocratização nos anos 80.

O ataque ocorreu em 8 de janeiro de 2023, em Brasília, uma semana após a posse do Presidente Lula, com os bolsonaristas simultaneamente invadindo os prédios do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e do Supremo Tribunal Federal.

O episódio foi num domingo, com os prédios fechados e vazios e ficou marcado por extenso vandalismo e também por condenações e indiciamentos de centenas de pessoas. O movimento queria criar uma atmosfera de caos na esperança de conseguir a adesão do Exército à sua causa.

Por que o ataque fracassou em derrubar o Governo?

Não há dúvidas de que o bolsonarismo é um movimento de massas com capacidade de mobilização popular em diversas regiões do país. Naquele momento, porém, haviam elementos que favoreceram a manutenção da ordem democrática. O mais importante deles foi a falta de apoio dos Estados Unidos.

O Presidente era o democrata Joe Biden e sua reação foi imediata chamando o acontecimento de um “ultraje” (ele havia sido vítima de episódio parecido dias antes com a Invasão do Capitólio, evento este que por certo inspirou também o ataque em Brasília). Ele garantiu que os Estados Unidos não iriam contestar a vitória de Lula e deu um telefonema de apoio ao Presidente brasileiro.

A adesão do exército, então, não veio. A maioria dos militares de alta patente presou pela ordem constitucional, mesmo com simpatia e envolvimento de setores das forças armadas no processo, o que ficou provado posteriormente em relatório da Polícia Federal. Segundo a PF, o evento foi o resultado de uma conspiração de bastidores envolvendo militares da ativa, da reserva, ministros do Estado e integrantes do Governo anterior.

Foi também determinante a rápida reação institucional dos Poderes da República, tendo o protagonismo sido marcado pelo Supremo Tribunal Federal na figura de Alexandre de Moraes, que passou inclusive a ser visto como um elemento de Esquerda no Brasil depois disso, a despeito do seu histórico de filiação partidária na Direita Tradicional (PSDB, DEM e MDB) e de ter sido Secretário do Governo Alckmin no Estado de São Paulo e Ministro da Justiça no Governo Federal de Michel Temer.

O contexto agora é outro: tensão entre Brasil e Estados Unidos

Se Joe Biden em 2023 optou por respeitar a soberania nacional brasileira, aceitando o resultado das eleições, afinal o sistema eleitoral brasileiro é dos mais seguros do mundo e não haviam indícios de fraude, com Donald Trump a tendência é o oposto.

O atual presidente norte-americano adota a estratégia de questionar as eleições até mesmo no seu próprio país. Além disso, após comemorarem vitórias da Extrema Direita por toda a América Latina, figuras do Governo estadunidense têm falado abertamente que agora é a vez do Brasil.

Donald Trump chegou ao absurdo de chamar o Governo Brasileiro de “repugnante” no texto da Ordem Executiva de Declaração de Emergência Nacional contra o Brasil, publicada em 30 de julho de 2025 pela Casa Branca.

Nesse documento ficou clara a intenção dos Estados Unidos em vincular os assuntos de facções criminosas, terrorismo e narcotráfico ao discutir o Brasil, estratégia que, de lá pra cá, se intensificou e já foi também usada recentemente para derrubar outros governos Latino-americanos.

Se olharmos sob a ótica da geopolítica internacional a coisa fica ainda mais delicada. Os Estados Unidos têm visto seus empreendimentos de guerra frustrados em múltiplos frontes. Incapazes de desestabilizar a Rússia, tentam deixar a guerra da Ucrânia por conta da OTAN. Também não tiveram o resultado esperado ao atacar o Irã, que mesmo sofrendo com a destruição das suas infraestruturas, mantém firme seu governo.

Quanto ao conflito que buscavam iniciar junto ao Taiwan contra a China, parece, pelo menos por hora, que desistiram do projeto. Isso tudo faz com que os EUA se concentrem então na América Latina. Garantir, por exemplo, controle sobre o mercado brasileiro das Terras Raras é fundamental para o desejo norte-americano de diminuir a dependência da sua indústria das matérias primas chinesas.

Crises nos poderes: STF de costas para a parede

No embalo dos escândalos do Supremo Tribunal Federal, com alguns de seus membros supostamente conectados a Daniel Vorcaro, empresário que tem sido apontado por investigações da Polícia Federal como líder de colossal fraude bancária, vemos o Judiciário brasileiro perder credibilidade com o povo a cada dia que passa.

Narrativas da oposição buscam incansavelmente atrelar o Judiciário e seus membros ao Governo Federal e ao Presidente Lula, mesmo que os grupos políticos mais claramente envolvidos com Vorcaro sejam outros.

O próprio candidato da Extrema Direita, Flávio Bolsonaro, tem fortes ligações, segundo a Policia Federal, com o bancário preso.

Repetindo-se então uma vitória apertada de Lula nas eleições de 2026, caso o bolsonarismo se organize novamente para trabalhar na faísca de um golpe, encontrarão terreno mais fértil. No governo dos Estados Unidos está Donald Trump, que torce por Flávio Bolsonaro e tradicionalmente questiona resultado de eleições, de modo que os protestos da Direita brasileira, provavelmente, terão coro em Washington.

Além disso, um Supremo Tribunal Federal com a reputação em ruínas terá menos condições de trabalhar no sentido da manutenção da democracia brasileira. A questão, então, não é apenas se haverá um novo processo reacionário no Brasil numa eventual vitória de Lula, mas também o quão mais profundo e perigoso tal processo poderá ser dessa vez.

*Henrique Casanova
Jornalista e Geógrafo
@henriquecasanovapoa

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