Terça-feira, 22 de Setembro de 2026

Home Colunistas A pessoa com quem você se casou não existe mais

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“Você não era assim quando a gente se casou.”

Ela disse isso olhando para o marido, depois de uma discussão boba sobre algo que nenhum dos dois lembraria direito no dia seguinte.

Ele ficou em silêncio. Talvez porque tivesse pensado exatamente a mesma coisa sobre ela. Ela não era mais aquela mulher que ria de qualquer coisa, que fazia planos até para os próximos vinte anos e que parecia ter energia para tudo.

Ele também não era mais aquele homem que chegava em casa com flores, fazia planos de última hora e parecia disposto a atravessar a cidade só para vê-la por algumas horas. O tempo tinha passado. E, com ele, vieram filhos, contas, perdas, conquistas, cansaço, mudanças de corpo, responsabilidades, sonhos adiados e outros que nasceram no caminho.

Eles ainda se amavam. Mas já não eram os mesmos. E, talvez, seja justamente aí que muitos casamentos comecem a se perder: quando um tenta encontrar no outro a pessoa que conheceu há dez, vinte ou trinta anos. A verdade é que você não vai amar a mesma pessoa durante toda a vida. E ela também não vai amar exatamente a mesma versão de você.

No começo, queremos paixão, frio na barriga, mensagens durante o dia e aquela sensação deliciosa de sermos escolhidos. Depois, chegam as contas, a carreira, os filhos, as responsabilidades, esses grandes especialistas em testar o romantismo.

Aos poucos, aquilo que parecia urgente muda de lugar. Talvez, aos trinta você queira construir. Aos quarenta, equilibrar. Aos cinquenta, respirar. Aos sessenta, desfrutar. E, em cada fase, o amor precisa encontrar uma nova maneira de existir. O problema começa quando um olha para o outro e pensa: “Você mudou.” Sim. Mudou. Mas, talvez, a pergunta mais importante não seja “por que você mudou?”, e sim: “Quem você está se tornando?”

Porque o casamento também atravessa fases. Há momentos em que o casal está criando filhos, outros em que está tentando sobreviver às demandas da vida, e outros em que finalmente percebe que existe uma relação para cuidar depois que tantas outras necessidades foram atendidas. A pessoa que você conheceu aos vinte e poucos anos talvez tenha se tornado alguém mais cansado, mais experiente, mais seguro, mais sensível ou até mais silencioso.

Você também. Talvez hoje vocês tenham menos frio na barriga e mais história. Menos idealização e mais realidade. Menos urgência e mais profundidade. E isso não significa que o amor acabou. Significa que ele precisa ser atualizado. Porque amar alguém por muitos anos exige curiosidade. Curiosidade para descobrir quem aquele homem se tornou. Quem aquela mulher se tornou. Quais são seus novos medos, desejos, sonhos, necessidades e até suas novas formas de demonstrar amor.

Há casamentos que não terminam por falta de amor. Terminam porque um deixou de conhecer o outro enquanto o outro continuava tentando ser amado como era dez anos atrás. Relacionamento duradouro não é aquele em que duas pessoas permanecem iguais. É aquele em que duas pessoas conseguem olhar uma para a outra e dizer, mesmo depois de tantos anos: “Eu sei que você mudou. Eu também mudei. Então, vamos nos conhecer de novo?”

Talvez o segredo não seja amar a mesma pessoa durante toda a vida, mas, sim, aprender a amar as muitas pessoas que vocês vão se tornando ao longo dela.

Até a próxima consulta.

* Tatiane Scotta, psicóloga, sexóloga e palestrante

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