Sábado, 06 de Junho de 2026

Home Saúde Açaí: novo estudo comprova efeito neuroprotetor dessa fruta no cérebro dos adolescentes

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A Euterpe oleracea, popularmente conhecida como açaí, é uma fruta amazônica amplamente consumida pelas populações locais do estado do Pará. Em razão do seu alto teor de compostos bioativos, o açaí tem ganhado atenção nacional e internacional como alimento funcional e nutracêutico.

Isso porque a ciência tem comprovado diversas das propriedades tradicionalmente relatadas pelos povos da Amazônia: o açaí possui atividade anti-inflamatória, antioxidante, anticancerígena, cardioprotetora e neuroprotetora. Esses benefícios estão diretamente ligados aos compostos fenólicos presentes na fruta, especialmente as antocianinas (cianina-3-glucosídeo e cianidina-3-rutinosídeo), responsáveis pela cor roxa do açaí.

Nas comunidades ribeirinhas, o consumo de açaí é comumente praticado desde os primeiros anos de vida e é associado a uma sensação de “relaxamento”. A curiosidade sobre esse efeito amplamente conhecido pela população local deu luz a uma parceria científica que tem mostrado como o fruto pode atuar como um importante neuroprotetor, com ação contra ansiedade e depressão em adolescentes.

Da Bélgica ao Pará

Esse fruto tão saboroso e único encantou o professor Hervé Rogez, um cientista belga que reside há 32 anos no Pará. Atualmente, ele coordena o Centro de Valorização de Compostos Bioativos da Amazônia (CVACBA), na Universidade Federal do Pará (UFPA). Motivado a conhecer melhor as propriedades do açaí, o professor Hervé e seus alunos percorrem as áreas de várzea das ilhas ribeirinhas que cercam Belém (PA) para coletar frutos de açaí.

A ideia era tentar entender se essa sensação de relaxamento estaria também ligada aos compostos fenólicos do fruto. Ele então me procurou, por minha expertise em avaliação neurocomportamental associada ao uso de substâncias psicoativas, como coordenadora da área de comportamento do Laboratório de Farmacologia da Inflamação e do Comportamento (LAFICO).

O professor Hervé liderou o desenvolvimento do suco de açaí clarificado, um produto biotecnológico obtido através da centrifugação e microfiltração da polpa do açaí, representando uma fração aquosa, rica em polifenóis e sem fibras, proteínas, carboidratos e lipídios. Desta forma, qualquer resultado apontado em pesquisa pode ser associado aos compostos fenólicos, e não aos demais constituintes do açaí.

E esse suco de açaí clarificado foi então avaliado num projeto liderado pela doutoranda Taiana Simas, orientada pelo professor Hervé e por mim e que também assina esse texto, como um possível fator neuroprotetor contra ansiedade e depressão.

Pesquisa

A adolescência é marcada por um período de vasta maturação cerebral, onde se tem o refinamento das sinapses, intensa remodelação estrutural e funcional, reorganização de circuitos neurais e elevada plasticidade sináptica. Por conta disso, o cérebro adolescente tem maior sensibilidade a fatores ambientais e estressores – como, por exemplo, o uso de drogas ou álcool.

Por isso, nos interessava investigar como esse suco de açaí clarificado poderia proteger cérebros adolescentes em desenvolvimento. E, como em todas as pesquisas científicas dessa natureza, começamos com os testes preliminares. Investigamos, assim, a ação do suco em ratos do sexo masculino, com idades equivalentes ao início da adolescência humana (aproximadamente 10-18 anos).

Um estudo anterior do professor Hervé constatou que as comunidades do entorno de Belém consomem por volta de 500mL de açaí por dia e que o teor de antocianinas na polpa do açaí está em torno de 865mg/L. Para mimetizar o consumo da população ribeirinha da Amazônia, calculamos a dose para os animais: 5,85mL de suco clarificado de açaí.

Os ratos recebiam o suco através de pequenos bebedouros posicionados nas gaiolas, e podiam tomar livremente o açaí clarificado durante um período de 12 horas por dia, entre 18h e 6h.

Após 10 dias de ingestão do suco de açaí clarificado, os animais foram submetidos a uma bateria de testes comportamentais a fim de investigar os comportamentos do tipo ansioso, depressivo, além de efeitos sobre a cognição.

O estudo mostrou que a introdução do suco clarificado do açaí na rotina alimentar dos animais não promoveu nenhuma alteração em sua locomoção. Por outro lado, induziu um comportamento ansiolítico, demonstrado pela maior exploração da área central do campo aberto pelos animais que consumiram o açaí.

O efeito de redução do comportamento do tipo ansioso foi confirmado pelo teste do labirinto em cruz elevado, cujos resultados mostraram aumento da porcentagem de entrada e tempo nos braços abertos, além da diminuição do índice de ansiedade e da porcentagem de tempo no braço fechado, indicando um comportamento ansiolítico nos animais que consumiram a bebida.

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