Sexta-feira, 18 de Setembro de 2026

Home Saúde Burnout: entenda por que o Brasil vive explosão de afastamentos por “esgotamento”

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O esgotamento profissional, ou burnout, tornou-se uma realidade brasileira recorrente, presente nas conversas informais e nos consultórios de psicologia, psiquiatria e medicina do trabalho.

Segundo dados da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt), com informações do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), entre 2023 e 2025 o número de afastamentos por problemas relacionados ao esgotamento passou de 1.760 para 6.985, um aumento de 296%. Os dados consideram pessoas afastadas por mais de 15 dias, e o número pode ser maior ao incluir afastamentos mais curtos ou casos que não foram comunicados ao empregador.

“Não existe um teste que indique que a pessoa tem burnout. É feito um exame clínico que observa as queixas daquele trabalhador. São quadros que contam com o esgotamento físico, a pessoa desenvolve uma coisa que chamamos de despersonalização. Ela passa a trabalhar no automático, como se não estivesse naquele local, e se torna ineficaz (em suas tarefas) com o tempo”, explica Francisco Cortes Fernandes, presidente da Anamt.

Segundo ele, também é necessário avaliar o ambiente profissional. “É preciso também olhar para o local onde essa pessoa trabalha, se há uma carga de trabalho muito grande, excesso de controle, falta de recompensas, por exemplo. É preciso conhecer o local, a forma como o trabalhador realiza suas tarefas, e os sintomas dele para que possamos fechar o diagnóstico do burnout.”

O psiquiatra Arthur Guerra afirma que o burnout reúne sintomas semelhantes aos de outros quadros de saúde mental. “O burnout se comporta como um quadro psiquiátrico. A pessoa tem mudanças no padrão de sono, vai para a cama e fica ‘fritando’, por exemplo. Em outros casos, tenta, tenta, tenta entregar as demandas, mas não consegue. E há ainda pensamentos recorrentes sobre falta de valor, a pessoa sente menos, se acha ineficiente. Depois disso, vem um sentimento de tristeza, de chateação e até irritabilidade. Esse é o burnout”, explica.

Entre os fatores associados ao aumento dos casos estão a conexão constante com o trabalho, a falta de descanso, o excesso de estímulos e ambientes disfuncionais.

Um levantamento da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV), com empresas que representam 300 mil funcionários, mostra que 89% das organizações não têm diretrizes que impeçam mensagens fora do horário de trabalho. Além disso, 65% dos entrevistados afirmaram não ter programas de prevenção de riscos à saúde mental.

“As pessoas não sabem mais como descansar, o descanso também virou uma meta. Não vivemos num mundo que permita a pausa que todos nós precisamos. Não há o mínimo espaço para pensar no que realmente precisamos. Porque há sempre uma nova meta, uma nova informação a consumir e um novo conteúdo para gerar”, afirma Aline Wolff, psicóloga do Comitê Olímpico Brasileiro.

Para ela, o burnout também está relacionado à perda de sentido. “Ela vai indo, vai produzindo, e nem sabe exatamente o quê. E isso é um ponto importante para o burnout porque esse quadro está muito associado à perda de sentido; a pessoa vai fazendo as coisas no automático, batendo metas, mas nada daquilo tem sentido.”

Ambiente de trabalho

Gabriel Okuda, psiquiatra do Hospital Oswaldo Cruz, afirma que o burnout é um adoecimento individual, mas também revela problemas no ambiente profissional. Entre eles estão equipes reduzidas, cobranças inadequadas, falta de autonomia e dificuldade de separar trabalho e vida pessoal.

“Se pensarmos no indivíduo que se afasta da empresa porque está sobrecarregado, a equipe é insuficiente, a cobrança é inadequada, ou há falta de autonomia, as razões não afetam só quem sai, mas a todos. Por vezes, outras pessoas ainda são sobrecarregadas pela necessidade de afastamento do colega, levando a um efeito em cascata”, afirma.

Segundo Okuda, o tratamento precisa considerar também as condições de trabalho. “O burnout tem a ver com o ambiente de trabalho, não adianta (apenas) prescrever antidepressivo ou pedir para a pessoa fazer terapia. (…) É necessário reduzir os fatores de estresse no ambiente de trabalho, o que pode necessitar de redução de carga ou reestruturação de equipes. As condições do ambiente de trabalho têm de ser investigadas.” (Com informações do jornal O Globo)

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