Terça-feira, 23 de Junho de 2026

Home Colunistas Como a dependência de estimulantes sexuais esconde a crise de saúde mental masculina

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Se olharmos atentamente para o comportamento masculino atual, percebemos que o famoso “azulzinho” mudou drasticamente de endereço. Ele saiu das gavetas secretas da terceira idade e caiu direto na carteira dos jovens de vinte e poucos anos, transformando-se em uma espécie de seguro emocional para os finais de semana.

Estamos vivenciando uma epidemia silenciosa e preocupante na saúde mental. Cada vez mais, homens de diferentes faixas etárias, com um destaque alarmante para as gerações mais novas, buscam a terapia sexual trazendo exatamente a mesma queixa de fundo: a incapacidade de se relacionar intimamente sem o suporte prévio de estimulantes sexuais.

O grande nó dessa questão é que esse recurso de farmácia, consumido sem critérios, esconde uma verdade incômoda que recebo no meu dia a dia clínico: os homens estão terceirizando sua masculinidade porque a mente deles acabou travando pelo excesso de pressões cotidianas.

A banalização do uso dos estimulantes sexuais tornou-se o principal escudo masculino para evitar o confronto com três grandes vilões da atualidade: a disfunção erétil psicogênica, a ansiedade generalizada e a depressão.

Em minha prática clínica, o aumento na busca por tratamento para desintoxicação psicológica desses medicamentos é evidente. O homem que consome o comprimido de forma recreativa acredita piamente estar no controle de sua potência. No entanto, o que ele está fazendo na verdade é terceirizar sua segurança emocional para a farmácia.

A facilidade de alcançar um desempenho garantido de forma artificial com o uso de estimulantes sexuais criou a ilusão de que o corpo do homem precisa funcionar perfeitamente sob qualquer circunstância.

É a tirania do “homem máquina”, que tenta anular suas próprias fragilidades emocionais com um atalho de laboratório, ignorando que a nossa biologia não responde a um botão mecânico de liga e desliga.

A engrenagem do prazer começa bem longe da virilha. O principal órgão sexual é o cérebro.

A resposta sexual masculina depende diretamente do relaxamento e da ativação do sistema nervoso parassimpático. Quando você está relaxado, o sistema nervoso central comanda o espetáculo e os neurotransmissores fazem o fluxo sanguíneo fluir. Mas quando o homem está tomado pela ansiedade, seja pelo medo de rejeição, pela pressão estética ou pela exaustão profissional, o corpo libera cortisol e adrenalina, substâncias que naturalmente cortam a ereção. O cérebro interpreta que você está em perigo iminente.

Na lógica evolucionista, se você estivesse correndo de um leão na savana, a última coisa que o seu corpo faria seria manter uma ereção. O sangue foge para os músculos para você lutar ou fugir, gerando um bloqueio psicológico que o homem interpreta erroneamente como uma falha mecânica do organismo.

O perigo da depressão entra exatamente aí: sintomas depressivos como a perda de interesse por atividades antes prazerosas se estendem à vida sexual. O uso do estimulante tenta forçar uma resposta física onde não há desejo genuíno, gerando frustração profunda.

Tratar a sexualidade isolada da saúde mental é um erro médico e terapêutico. O consumo desenfreado de remédios cria uma barreira protetora que impede o homem de perceber que o seu corpo está pedindo socorro emocional, não químico.

Grandes resultados são alcançados no consultório através da psicoeducação. Os homens precisam entender a fisiologia do próprio desejo. Quando eles compreendem que a vulnerabilidade, o cansaço, o medo e as oscilações de humor fazem parte da natureza humana, o peso da cobrança diminui.

O trabalho da sexologia funciona como uma engenharia reversa das emoções. Desarmamos essa bomba-relógio ensinando o paciente a se reconectar com o próprio desejo íntimo sem o cronômetro da farmácia apitando na cabeça.

A terapia sexual oferece um espaço seguro e focado no acolhimento: um ambiente livre de julgamentos onde eles podem admitir suas fraquezas, tratar a ansiedade de performance e curar as feridas da depressão.

O aumento da procura por essa modalidade terapêutica reflete uma urgência. Mostrar que a vulnerabilidade não destrói a masculinidade é o único caminho real para a libertação.

É hora de parar de remediar o sintoma e começar a curar a mente. Cuidar do seu emocional ainda é o melhor e mais potente afrodisíaco disponível.

Até a próxima consulta.

* Tatiane Scotta, psicóloga, sexóloga e palestrante

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