Sexta-feira, 08 de Maio de 2026

Home Colunistas Do papel à história

Compartilhe esta notícia:

Os trabalhadores da construção civil assistiram, nos últimos anos, a uma série de embates entre os setores público e privado. E, claro, somos nós que acabamos sentindo os impactos diretos dessas disputas — na dignidade, na qualidade de vida e, principalmente, nas nossas conquistas sociais e econômicas. Passei por situações que, olhando agora, mostram o quanto o resultado final foi importante, especialmente para quem vive do trabalho e depende das oportunidades para melhorar de vida.

Um exemplo que lembro bem foi a transformação da Terceira Perimetral, em Porto Alegre. Nos anos 2000, ela virou uma via rápida, com viadutos e corredores de ônibus. Muita gente foi contra na época. Mas quem depende do transporte público sabe, até hoje, o quanto aquela obra mudou a rotina da cidade. A via se tornou a espinha dorsal do trânsito, ligando o sul ao norte sem a necessidade de passar pelo centro.

Lembro também de outro caso, ainda maior em amplitude: a expansão da fábrica de celulose em Guaíba, iniciada em 2013, que enfrentou resistência de ambientalistas e moradores preocupados com possíveis impactos no Rio Guaíba e no meio ambiente. Mas hoje vemos que a modernização daquela época não trouxe os problemas anunciados. Pelo contrário. As obras se tornaram referência em boas práticas.

Vivenciamos ali exemplos importantes de responsabilidade social, diálogo transparente com o STICC e compromisso com a segurança dos trabalhadores. Havia, inclusive, um posto dentro da obra dedicado exclusivamente à fiscalização das condições de segurança das empresas terceirizadas. Foi um avanço importante para todos. Chegando ao momento atual, estamos diante de um embate muito maior do que os exemplos citados acima. A suspensão da licença ambiental da nova fábrica da CMPC gera preocupação porque, segundo os fatos e documentos que acompanhamos, o projeto atende às exigências técnicas e ambientais previstas pelos órgãos responsáveis. E somos defensores de que todos os requisitos sejam rigorosamente observados. Isso é óbvio.

A dúvida que emerge nesse contexto é outra: será que o que está emperrando esse processo possui algum ingrediente ideológico? No STICC, defendemos um princípio vital nas nossas relações sociais e institucionais: a não ideologização das pautas. O sindicato não tem lado político. Dialogamos com diferentes correntes de pensamento — da esquerda à direita — desde que exista respeito à individualidade, à diversidade de cor, gênero, religião e opinião.
Por um motivo muito claro: quando a ideologia pauta o diálogo ou a resolução dos conflitos, o respeito à liberdade deixa de existir.

Quando a ideologia — seja política, econômica, social ou ambiental — se sobrepõe à viabilidade técnica, econômica e científica, ela pode se transformar em um entrave ao desenvolvimento industrial e à mobilidade social. Será que é isso que está acontecendo agora? A obra em questão, na minha opinião, é um divisor de águas e promete ser imortalizada na biblioteca da história gaúcha. Mais do que um empreendimento industrial, o projeto representa a materialização da esperança para milhares de trabalhadores da construção civil, cujas vidas podem ser transformadas pela geração massiva de empregos e renda.

Embora o projeto já tenha conquistado o aval dos órgãos ambientais competentes e conte com o apoio de lideranças de importantes segmentos profissionais e representações sociais, o avanço dessa obra vital encontra-se hoje sob a sombra de um impasse jurídico. Entre processos e decisões, o que está em jogo não é apenas um licenciamento ambiental. O que está em jogo é o direito ao desenvolvimento de uma região inteira, que clama para que esse projeto saia finalmente do papel e se transforme no alicerce de um novo ciclo de prosperidade.

Não estamos falando apenas de uma nova fábrica, mas, do direito da nossa região de crescer, prosperar e abrir um ciclo novo para todos trabalhadores da construção civil e para todos gaúchos. Estamos falando de esperança concreta. De milhares de pessoas que terão trabalho, salário, dignidade e uma oportunidade real de mudar de vida.
A nova fábrica de celulose pode representar um capítulo de evolução social que os gaúchos querem escrever.
Do papel à história.

* Gelson Santana é presidente do STICC- Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil de Porto Alegre e Secretário Nacional dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil, Construção Pesada e em Montagem Industrial UGT.

Compartilhe esta notícia:

Voltar Todas de Colunistas

Terras raras e a nova batalha pela soberania brasileira
Deixe seu comentário
Baixe o app da RÁDIO Pampa App Store Google Play
Ocultar
Fechar
Clique no botão acima para ouvir ao vivo
Volume

No Ar: Programa Pampa Na Madrugada