Segunda-feira, 29 de Junho de 2026

Home Colunistas É preciso saber viver… Como você está vivendo a sua vida?

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A vida costuma nos ensinar uma lição curiosa. Passamos a juventude acreditando que a felicidade mora no destino. Imaginamos que ela está escondida no próximo emprego, na próxima promoção, na próxima viagem, na próxima casa ou na próxima conquista.

Vivemos como quem olha apenas para a linha de chegada. Talvez esse seja o maior equívoco da nossa existência. Quando somos jovens, queremos impressionar o mundo. Quando amadurecemos, queremos construir um lugar para onde tenhamos vontade de voltar todas as noites…

Essa mudança transforma a maneira como enxergamos a vida. Imagine dois homens. O primeiro trabalhou quarenta anos sem descanso. Perdeu momentos com a família, abriu mão da saúde e chegou milionário aos setenta anos.

O segundo ganhou sozinho na loteria aos sessenta e nove. Ambos chegaram ao mesmo destino. Mas será que viveram a mesma vida?

Há caminhos que cobram caro demais. Há pessoas que chegam ao topo carregando feridas que jamais cicatrizam. Conquistam bens, títulos e dinheiro, mas perdem a leveza, a saúde, os afetos e até a capacidade de celebrar.

Chegar lá depois de dar dois passos para frente e três para trás, tropeçando em cada esquina da existência, pode até parecer vitória aos olhos do mundo. Mas, por dentro, talvez seja apenas cansaço disfarçado de conquista.

Aprendi a valorizar os passos pequenos, desde que sejam para frente. Um dia organizado. Uma conta paga. Uma ideia escrita. Uma amizade preservada. Uma geladeira cheia. Um projeto que avança. Uma noite de paz…

Cada pequena conquista é um tijolo invisível na construção de uma vida melhor. Mesmo que eu nunca alcance todos os meus sonhos exatamente como imaginei, terei vencido se puder olhar para trás e perceber que caminhei para frente todos os dias, sem destruir minha alma no percurso.

Porque a vida feliz talvez não seja aquela que termina no grande prêmio, mas aquela em que a caminhada, por si só, já nos fez bem.

Percebi então que, talvez, estivéssemos fazendo a pergunta errada. Sempre perguntamos onde queremos chegar. Poucos perguntam como desejamos chegar…

Talvez porque tenhamos aprendido a ouvir demais as vozes do mundo e de menos o nosso próprio coração.

Vivemos cercados por pessoas dizendo como devemos viver. Muitos afirmam que precisamos produzir mais, ganhar mais e conquistar mais, como se descansar fosse perda de tempo e uma agenda cheia fosse sinônimo de uma vida realizada.

Mas será que viver é apenas produzir? Será que não estamos confundindo uma vida ocupada com uma vida feliz?

Com o tempo, descobri que nem toda hora livre é desperdício. Às vezes, um café sem pressa, um almoço em família, uma caminhada, uma boa conversa, um fim de tarde ao lado de quem amamos ou alguns minutos de silêncio valem mais do que horas extras de trabalho.

O dinheiro compra muitas coisas. Mas jamais compra um abraço que deixamos de dar, uma infância que não acompanhamos ou uma lembrança que nunca tivemos tempo para construir…

Cada pessoa precisa descobrir o próprio ritmo. Há quem seja feliz trabalhando quinze horas por dia. Há quem encontre plenitude vivendo com mais calma. Nenhum dos dois está necessariamente errado.

O verdadeiro erro talvez seja viver segundo o relógio dos outros e ignorar aquilo que faz o nosso próprio coração bater em paz.

Hoje tenho cinquenta e sete anos. Passei por dificuldades, enfrentei perdas, tomei decisões erradas e também recebi bênçãos que jamais mereceria. Se pudesse voltar no tempo para mudar tudo, minha resposta continuaria sendo não.

Porque cada erro, cada tropeço e cada vitória construíram exatamente o homem que sou hoje. Nem todo o dinheiro do mundo seria capaz de comprar essa experiência.

Nos últimos anos, principalmente depois de fortalecer minha fé, minha vida começou a caminhar em outra direção. Não porque todos os problemas desapareceram. Eles continuam existindo…

A diferença é que perderam o tamanho. Hoje, os desafios já não ocupam todo o horizonte. Tornaram-se apenas parte da paisagem.

Continuo sonhando… Quero uma casa confortável. Quero viajar com minha mãe. Quero uma sala com lareira, onde possamos envelhecer cercados de tranquilidade. Quem sabe compartilhar essa fase da vida com alguém especial.

Ao pensar nesses sonhos, descobri algo ainda mais importante. O sucesso não é morar na casa dos sonhos. É perceber que, enquanto ela está sendo construída, a vida já vale a pena.

Tenho trabalho. Tenho saúde. Tenho comida na geladeira. Tenho leitores, projetos que crescem lentamente e pessoas que acreditam em mim. Tenho esperança. Talvez seja justamente isso que muitos procuram a vida inteira sem perceber.

Existe uma enorme diferença entre viver esperando ser feliz e viver feliz enquanto continua construindo. Porque, no fim das contas, ninguém mora na linha de chegada.

Moramos todos os dias no caminho. E talvez seja exatamente isso que signifique saber viver. Não esperar que um grande acontecimento transforme nossa existência. Mas descobrir que cada pequeno passo também merece ser celebrado.

Afinal, a vida não acontece quando realizamos nossos sonhos. Ela acontece enquanto caminhamos em direção a eles.

* Fabio L. Borges, jornalista, cronista e poeta gaúcho

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