Quarta-feira, 15 de Abril de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 15 de abril de 2026

O debate sobre o fim da escala 6×1 ganhou centralidade no Rio Grande do Sul ao reunir, no Tá na Mesa da Federasul, os quatro últimos presidentes da Assembleia Legislativa. Mais do que uma discussão trabalhista, o tema revelou um impasse estrutural: como equilibrar crescimento econômico, competitividade e qualidade de vida em um Estado pressionado por crises sucessivas.
O encontro, que discutiu os desafios para o desenvolvimento gaúcho, ocorreu em um contexto marcado por recuperação econômica lenta, impactos climáticos recentes e mudanças demográficas. Ao abrir o evento, o presidente da Federasul, Rodrigo Sousa Costa, foi direto ao ponto ao defender um ambiente mais favorável aos investimentos. Segundo ele, a retomada do crescimento passa por “encontrar convergências capazes de reverter a situação atual”, em referência ao cenário de estagnação e perda de dinamismo econômico.
A proposta em debate no Congresso Nacional — que prevê o fim da jornada 6×1 e a redução da carga semanal de 44 para 40 horas — dividiu opiniões, mas uniu os parlamentares em um diagnóstico comum: o tema exige profundidade, responsabilidade e análise técnica.
Para Vilmar Zanchin, que presidiu o Legislativo em 2023, a discussão não pode ignorar a relação entre trabalho e produtividade. “Os países mais desenvolvidos cresceram com base no trabalho. É preciso encontrar equilíbrio, porque a redução da jornada pode exigir novas contratações e impactar diretamente as empresas”, afirmou.
Adolfo Brito, presidente em 2024, reforçou a necessidade de afastar o debate de disputas ideológicas. Para ele, a decisão deve considerar a capacidade real da economia de absorver mudanças dessa magnitude. “É preciso definir uma proposta que a economia possa sustentar”, destacou, conectando o tema ao desempenho do setor produtivo, especialmente o agro, que considera estratégico para o Estado.
Já Pepe Vargas, que comandou a Assembleia em 2025, apresentou uma visão distinta. Ao defender um crescimento econômico mais robusto e sustentável, relativizou os riscos da mudança na jornada. “Não vejo a redução como um fator de crise econômica”, afirmou, associando o debate à necessidade de reduzir desigualdades e modernizar as relações de trabalho.
Atual presidente da Casa, Sergio Peres trouxe um olhar territorial ao tema. Para ele, os impactos da medida variam conforme as realidades regionais do país. “Diante das diferenças existentes, a medida pode ter efeitos distintos e precisa ser analisada com cuidado”, ponderou, ao defender maior protagonismo dos municípios na formulação de políticas públicas.
Apesar das divergências, houve consenso sobre um ponto central: o Rio Grande do Sul enfrenta desafios que vão além da legislação trabalhista. O Estado convive com uma dívida superior a R$ 110 bilhões, crescimento econômico abaixo da média nacional, envelhecimento populacional e os efeitos ainda presentes das enchentes de 2024.
Nesse cenário, a discussão sobre a escala 6×1 se insere em um debate mais amplo sobre o futuro do trabalho e da economia. A Federasul defende que qualquer mudança venha acompanhada de revisão nos encargos sobre a folha de pagamento — que hoje representam um dos principais entraves à competitividade.
A proposta de incorporar parte desses encargos diretamente aos salários surge como alternativa para preservar renda e estimular a produtividade. Ao mesmo tempo, a entidade sustenta a importância de garantir liberdade de escolha na jornada, evitando soluções únicas para realidades econômicas diversas.
O encontro evidenciou também um diferencial institucional do Rio Grande do Sul: o modelo de gestão compartilhada da Assembleia Legislativa. Considerado único no país, o sistema tem garantido estabilidade política e previsibilidade administrativa, fatores apontados como essenciais em um ambiente de incertezas.
No fim, o debate deixou claro que a escala 6×1 é apenas a superfície de uma discussão mais profunda. O verdadeiro desafio está em redesenhar o modelo de desenvolvimento do Estado — conciliando eficiência econômica, proteção social e capacidade de adaptação a um cenário cada vez mais complexo.
Mais do que decidir sobre dias de trabalho, o Rio Grande do Sul está sendo chamado a definir que tipo de futuro quer construir. (Por Gisele Flores – gisele@pampa.com.br)