Domingo, 31 de Maio de 2026

Home Saúde Febre dos álbuns da Copa está tirando crianças e adolescentes do isolamento social e familiar

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Eles estão por toda parte: nas escolas, nos shoppings, dentro dos condomínios, em espaços públicos, abertos ou fechados. A febre do álbum de figurinha da Copa do Mundo está arrastando crianças e adolescentes (e até mesmo adultos), com um benefício pouco esperado: o retorno da socialização.

Entre aplicativos de mensagem e redes sociais, nos últimos anos os jovens perderam parte do convívio presencial, e o fenômeno das figurinhas, ainda que cercado por críticas relacionadas aos custos e consumismo, trouxe uma reaproximação.

Durante os encontros, além de trocar figurinhas, as crianças aprendem a esperar (pela figurinha desejada), lidar com a frustração (quando não conseguem a desejada) e a negociar (nem sempre uma vale uma).

“Em uma geração imediatista, em que eles têm tudo na palma da mão, essa criação de expectativa ao abrir um novo pacote e o não saber o que pode vir, é importante para o desenvolvimento emocional delas. Esses encontros são reais, fogem do virtual, produzem conversa, negociação, senso de comunidade e aproximação. O valor da interação social é muito maior do que qualquer outra coisa”, avalia a psicanalista Renata Bento, da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro.

A psicóloga e doutora em psicanálise Carolina Nassau Ribeiro explica que é a partir da socialização que formamos quem somos como pessoas, quais são nossos limites, regulamos nossas emoções e aprendemos a resolver conflitos.

“Me falaram sobre um menino que estava tentando trocar todas as figurinhas repetidas que tinha por uma rara, difícil de conseguir. Só nessa ação, essa criança lida com a frustração de não conseguir a figurinha e ao mesmo tempo cria um plano para resolver o problema. Ele não desiste, não para de falar com a pessoa ou simplesmente a bloqueia, como ocorre nas redes sociais. Isso se torna anticorpo na vida adulta para essas crianças e adolescentes”, diz.

Socialização

Com a pandemia, experiências coletivas como essas viraram um risco de saúde. As pessoas se acostumaram a ficar sozinhas dentro de casa, lidando com sua própria companhia. E isso acabou tendo um custo muito alto para as crianças e adolescentes que perderam o convívio com as pessoas da mesma idade.

Consequentemente, houve um aumento nos casos de isolamento, depressão, ansiedade e crescimento no uso de telas. Os especialistas são claros ao afirmar que houve uma redução na socialização até mesmo entre aqueles que gostam de estar na presença de outros.

“Na história, estamos vivendo a fase mais complicada da socialização. Escuto sempre na clínica que é algo dispensável. Não é mais natural que as crianças e adolescentes socializem e isso acontece, muitas vezes, por falta de estímulo dos próprios pais”, explica a psicóloga Priscila Martins.

Segundo ela, os pais estão ficando menos sociáveis. E, para eles, é seguro que seus filhos também estejam, pois ficam dentro de casa, à vista. Mesmo que estejam com uma tela em suas mãos, estão dentro de casa “seguros”.

Essa falta de conversa e traquejo social é, segundo Martins, “viciante e prazerosa”, pois não interagir poupa de riscos, desgastes e problemas a serem resolvidos.

“Mas nós precisamos de troca e de pessoas. Principalmente entre as crianças e adolescentes quando a interação, além de ser diferente, gera brincadeira e aprendizado. Em uma simples conversa, eles lidam com chateação, alegria, aprendem a cair e levantar. Isso é algo que vem de cima para baixo, enquanto os pais não aprenderem a mudar a forma como veem a questão da socialização, isso não vai mudar ou melhorar”, diz Martins.

Falta desejo

E, por isso, essa febre do álbum de figurinhas se torna essencial para um novo começo. Entre adultos, entre pais e filhos, e entre as próprias crianças. Para os especialistas, os pais devem estimular esses encontros presenciais. Levar as crianças aos pontos de troca em shoppings ou condomínios, organizar uma mesa de trocas em casa, deixar o filho convidar amigos para abrir pacotinhos juntos, fazê-las saírem de casa e não ficar nas telas. E, o mais importante, deixá-las resolverem seus próprios problemas: só perguntar qual é o plano para completar o álbum, ou o que ela vai fazer para conseguir aquela figurinha que ela não tem, como será a negociação dela. (Com informações do jornal O Globo)

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