Quinta-feira, 20 de Agosto de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 19 de agosto de 2026
O financiamento coletivo de candidaturas, conhecido como vaquinha eleitoral, está concentrado neste ano na campanha de Renan Santos (Missão), que já arrecadou cerca de R$ 1,2 milhão. O valor é quase o dobro dos cerca de R$ 634 mil arrecadados por Jair Bolsonaro em 2022, maior financiamento coletivo daquele pleito em valores corrigidos pela inflação.
Desde 15 de maio, quando o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) liberou as vaquinhas online, a campanha do líder do MBL (Movimento Brasil Livre), com cerca de 20,3 mil apoiadores, superou Flávio Bolsonaro (PL), segundo no ranking, com R$ 170,5 mil.
A pouco mais de um mês do primeiro turno, 3 das 7 plataformas autorizadas arrecadaram ao menos R$ 10,4 milhões para cerca de 2 mil campanhas; as demais não tiveram arrecadação.
O montante registrado até o momento é mais de 60% dos R$ 16,3 milhões movimentados por sete plataformas ao longo de toda a campanha de 2022, em valores corrigidos (R$ 13,8 milhões nominais).
Diferentemente de Flávio, cujo partido tem a maior fatia do fundo eleitoral destas eleições, de R$ 881,6 milhões, o partido de Renan depende exclusivamente de doações individuais e da venda de produtos para financiar a campanha eleitoral.
A campanha do candidato do Missão afirma que a contribuição média é de R$ 60, e que São Paulo lidera em doadores. “Nós temos dez vezes mais doações, o que demonstra que nosso público é muito mais engajado”, disse a campanha em nota, ao comparar seu desempenho nas vaquinhas ao de Flávio.
A equipe do candidato do PL, por sua vez, afirmou que a vaquinha virtual tem um componente importante de mobilização e “ajuda a criar um sentimento de participação efetiva de todos apoiadores e eleitores”. “Vale lembrar que existe um teto de gastos para a campanha presidencial e o partido decide, dentro desse limite, o valor a ser repassado”, diz trecho da nota.
Apesar de os dois presidenciáveis estarem entre os principais arrecadadores por financiamento coletivo nestas eleições, o mecanismo se espalha também por candidaturas a outros cargos.
Em uma das plataformas deferidas pelo TSE, que reúne cerca de 1.700 candidatos, a campanha ao Senado do deputado federal Marcel van Hattem (Novo-RS) aparece em segundo lugar no ranking de doações, atrás de Renan Santos, com R$ 661,6 mil. Em seguida vêm as candidaturas a deputado federal de Jones Manoel (PSOL-PE), com R$ 546,3 mil, e de Rodrigo Spada (PSD-SP), com R$ 440,8 mil.
O exemplo de Flávio evidencia o uso do financiamento coletivo como ferramenta de engajamento mesmo quando o candidato tem acesso a recursos públicos de campanha. Apoiadores contribuem com pequenas quantias, divulgam as doações e reforçam sua identificação com candidatos e movimentos políticos.
Um indício desse caráter de mobilização é a frequência de contribuições de menor valor, muitas delas entre R$ 2 e R$ 150, segundo especialistas. A própria estrutura das vaquinhas também torna pública essa participação: pelas regras de transparência da Justiça Eleitoral, as plataformas devem divulgar informações sobre os doadores e os respectivos valores das contribuições.
Pagamentos podem ser feitos por Pix, cartões ou transferência bancária; dados do doador são enviados à Justiça Eleitoral.
“A mobilização pelas redes sociais é ampliada com as contribuições, embora em valores menores”, diz a cientista política Tathiana Chicarino, coordenadora da graduação em Sociologia e Política da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo).
Para ela, essa prática tem mais apelo em campanhas da direita, que apresenta forte presença nas redes sociais e maior ligação com setores de renda mais alta. “Segue uma lógica dos eleitores que, por exemplo, sejam contra programas de transferência de renda e prefiram doar e ser filantropo de seus candidatos. É outra estética, outro jeito de fazer política”, diz a cientista política. “Enquanto isso, historicamente, a esquerda tem mais mobilização de base por meio de panfletagem, por exemplo”, afirma.
Após a expectativa em 2018, o financiamento coletivo perdeu espaço entre empresas interessadas em operá-lo.
Aquele foi o primeiro ano de uso do mecanismo em uma eleição geral, após sua incorporação à legislação eleitoral em 2017, dois anos depois de o STF proibir as doações empresariais a campanhas.
Em 2018, a Justiça Eleitoral deferiu ao menos 59 registros de plataformas. Em 2022, esse número caiu para 18. Desde maio deste ano, dez empresas foram autorizadas a operar. (Com informações da Folha de S.Paulo)