Sexta-feira, 06 de Novembro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 5 de novembro de 2026
Quando deixou o Brasil, em 27 de outubro, dois dias após a derrota nas eleições presidenciais, Flávio Bolsonaro teria recebido apoio de um importante assessor do presidente argentino Javier Milei. Segundo reportagem do jornal The New York Times, Santiago Caputo, integrante do círculo próximo de Milei, aguardava o brasileiro no aeroporto de Puerto Iguazú, na Argentina, de onde ele embarcou com a família em um jato particular rumo a Miami, nos Estados Unidos.
De acordo com três pessoas ouvidas pelo jornal, Caputo viajou aproximadamente 1.290 quilômetros desde Buenos Aires para acompanhar a operação. O assessor teria ajudado a organizar a saída de Flávio Bolsonaro, inclusive agilizando procedimentos de passaporte e documentação necessários para o embarque. Os entrevistados pediram anonimato por se tratar de um assunto diplomático sensível.
Flávio Bolsonaro, entretanto, negou ter recebido auxílio do governo argentino ou de qualquer autoridade. Em entrevista concedida na quarta (4), afirmou que não conhecia Caputo e disse que havia vários argentinos ao seu redor no aeroporto, sem saber identificar se o assessor estava entre eles. Também não explicou detalhadamente como conseguiu realizar a viagem internacional.
O episódio envolve questionamentos sobre a situação documental do brasileiro. Segundo autoridades do Brasil, havia uma determinação para que ele entregasse seus documentos de viagem, enquanto informações divulgadas pela reportagem apontam que seus passaportes brasileiros haviam sido cancelados. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que seu país concedeu a Flávio Bolsonaro um “salvo-conduto” para entrar em território americano. O jornal também informou que um funcionário da Casa Branca teria providenciado a aeronave utilizada no deslocamento até Miami.
Caputo negou qualquer participação na viagem, afirmando, por mensagem de WhatsApp, que não desempenhou nenhum papel na operação. O Ministério das Relações Exteriores da Argentina também declarou que o governo de Milei não teve envolvimento na saída do brasileiro do País. Apesar das negativas, Flávio Bolsonaro agradeceu publicamente ao presidente argentino após chegar aos Estados Unidos, elogiando sua postura e seu compromisso com a justiça e a legalidade.
Aliados de Milei também comemoraram a chegada do brasileiro aos Estados Unidos. Juan Carreira, responsável pela comunicação digital do presidente argentino, publicou nas redes sociais que Flávio Bolsonaro estava a salvo das “garras do comunismo”. Caputo, embora não ocupe cargo oficial, é considerado um dos principais conselheiros de Milei e exerce influência sobre assuntos de política externa e inteligência.
A possível participação de integrantes do governo argentino ampliou as tensões diplomáticas entre os dois países. Milei é aliado político de Flávio Bolsonaro e participou de um evento de campanha com ele em São Paulo antes das eleições, ocasião em que também fez críticas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Lula, por sua vez, já havia acusado o argentino de interferência nos assuntos internos brasileiros e adotado medidas diplomáticas em resposta.
Na semana passada, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil teria convocado o encarregado de negócios da Argentina em Brasília para pedir explicações sobre a saída de Flávio Bolsonaro. Dois diplomatas brasileiros confirmaram a iniciativa ao jornal, mas o chanceler argentino Pablo Quirno negou, em publicação na rede social X, que o pedido tenha ocorrido.
A reportagem também detalhou a logística da viagem. Caputo teria chegado a Puerto Iguazú na noite de 26 de outubro, em um jato particular, e aguardado a chegada do brasileiro. A aeronave utilizada por Flávio Bolsonaro pertencia à empresa argentina Baires Fly e teria sido fretada por US$ 150 mil, segundo o proprietário, Luis Grande.
O avião estava previsto para partir na noite de 26 de outubro, mas o voo acabou atrasado devido a dificuldades de deslocamento dos passageiros. Flávio Bolsonaro cruzou a fronteira na noite seguinte, acompanhado da esposa e das duas filhas, e chegou ao aeroporto em uma van. Segundo testemunhas ouvidas pelo jornal, Caputo e seus auxiliares ajudaram a agilizar os procedimentos alfandegários. O avião decolou pouco depois da meia-noite de quarta-feira.
Após a partida, Caputo teria procurado um policial que gravava imagens da operação na pista e solicitado que os vídeos fossem apagados, conforme relatos de duas pessoas envolvidas no episódio.
Apesar das investigações brasileiras mencionadas na reportagem, Flávio Bolsonaro não havia sido acusado criminalmente, nem existia mandado de prisão contra ele no momento em que atravessou a fronteira. (Com informações do jornal The New York Times)