Domingo, 03 de Julho de 2022

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Não é somente nas guerras que a primeira vítima é a verdade. Campanhas políticas, especialmente aquelas gestadas em ambientes polarizados, também tendem a sacrificar os fatos em favor das versões, muitas delas em completo desatino. Em todas as democracias do mundo, o fenômeno das mídias sociais tem impactado de modo contundente o processo dialógico que deveria balizar a construção de consensos.

A busca por algum conforto emocional em um mundo progressivamente depressivo, e a crescente necessidade de aprovação social, são campos férteis para discursos descompromissados com o real. As bolhas autocentradas na internet fomentam certezas que serão replicadas e ajudarão a aplacar as consciências de indivíduos angustiados por um mínimo de estabilidade.

É disso que se aproveitam os charlatães, os falsos moralistas e toda espécie de mentirosos, que habilmente ocupam esse espaço de carência existencial comum a todos, em maior ou menor grau.

Nesse contexto, o espaço da racionalidade diminui, sobressaindo elementos intuitivos e emocionais, tornando estéreis tentativas de qualquer espécie de imposição forçada de argumentos. As pessoas não mudam de ideia a partir da refutação completa daquilo que pensam.

Assim, não cabe autorrecriminação ao falhar no convencimento de alguém. Existe explicação para esse processo de segregação política e comportamental, e as notícias não são exatamente as melhores para aqueles que imaginam “fazer a cabeça” dos outros abusando de dados, fatos e “ciência”.

Para Jonathan Haidt, somos fortemente inclinados a acreditar em quase qualquer coisa que apoie nosso grupo. Ainda segundo ele, décadas de pesquisa de opinião pública demonstram que o interesse próprio é um fraco preditor de preferências políticas. Antes, presumia-se que pessoas votassem por razões egoístas, optando pelo candidato que lhe trouxesse maiores benefícios.

Novas pesquisas sinalizam menos autointeresse e mais compromisso e lealdade com círculos ou facções, sejam raciais, políticos, regionais ou religiosos. Essas conclusões afetam decisivamente a forma como se desenrolam as escolhas, preferências e posturas pessoais, impactando não apenas o entendimento do complexo processo político eleitoral, mas também as nossas relações dentro de um contexto marcado por estruturas de afiliação mais gregárias, sensíveis ao olhar de aprovação do outro.

Isso, até certo ponto, explica porque o partidarismo tem um potencial viciante, segregando os extremos, colocando-os em posições de entrechoque permanente, uma vez ausente a mediação interpessoal ancorada na racionalidade, no caso superada por convicções já autenticadas pelo aval do grupo.

Essas conclusões se inclinam a sugerir que o confronto direto e agressivo visto hoje nas redes sociais, ao contrário de proporcionar eventual vitória de algum dos lados em conflito, aguçará ainda mais as posições extremadas, cristalizando posicionamentos sectários, com a chancela de todos aqueles que abraçam as muitas vezes dogmatizadas teses.

Não é a razão, desse modo, que será capaz de, sem o auxílio vigoroso de elementos intuitivos e emocionais, recuperar o indispensável espaço para a mediação entre contrários. O que se observa hoje, seja em grupos de WhatsApp, reuniões familiares ou demais encontros nos quais o assunto gire em torno de preferências políticas, é justamente o empoderamento dos feudos digitais, cuja couraça é tão mais resistente quanto maior tem sido a agressividade dos ataques que visam a miná-los.

Sem compreender que antes de sermos agentes racionais que sentem, somos agentes emocionais que raciocinam, falharemos na tentativa de nos aproximar de quem pensa diferente de nós.

Uma postura de maior abertura e entendimento, com a combatividade e a sensibilidade em equilíbrio dinâmico, sinalizará que opostos podem dialogar e, dialogando, abrir frentes empáticas em nossos casulos antes inarredáveis, que permitam convergir para uma convivência necessária, embora difícil, neste ano de tantos desafios e atribulações que assomam no horizonte.

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