Sábado, 31 de Outubro de 2026

Home Saúde Nova técnica de cirurgia de redesignação sexual foi criada por brasileiros

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Giacomo Furfori (27) saiu de Massa, no noroeste da Toscana, na Itália. O vietnamita Keane (30) de Singapura. Os dois homens trans vieram para Salvador, Bahia, atraídos por uma nova técnica de cirurgia de redesignação sexual criada por brasileiros. A operação promete a construção de um pênis com possibilidade de ereção, preservação da sensibilidade e tamanho maior em relação às técnicas convencionais.

Chamado de TCM (Total Corpora Mobilization, ou Mobilização Total dos Corpos Cavernosos), o procedimento foi desenvolvido pela equipe do urologista Ubirajara Barroso, especialista em reconstrução genital e cirurgias trans, em parceria com a Divisão de Urologia da UFBA (Universidade Federal da Bahia) e a Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública.

Segundo Barroso, o método surgiu para reconstrução genital em homens cis com pênis insuficiente (ou micropênis) e posteriormente passou a ser aplicado também em homens trans.

A projeção internacional começou quando a equipe de Barroso publicou os resultados do procedimento na revista científica International Brazilian Journal of Urology, em 2022. Mas foi no Reddit que a técnica ganhou visibilidade entre homens trans. A plataforma é usada por usuários para compartilhar experiências, tirar dúvidas e trocar informações sobre os mais variados assuntos.

“Nos últimos meses, já atendi pacientes do Canadá, Singapura, Austrália, Itália, Estados Unidos, Israel e Irlanda. Sempre fazemos consultas online para entender a história do paciente e poder agendar sua vinda ao país”, afirma Barroso, atual vice-presidente da SBU (Sociedade Brasileira de Urologia).

A reportagem solicitou ao Ministério da Saúde e à SBU dados sobre o número de homens trans estrangeiros que vêm ao Brasil para realizar esse tipo de cirurgia, mas nenhuma das instituições dispõe dessas informações.

Para Débora Pitol, cirurgiã plástica que se especializou em procedimentos de masculinização e feminilização de pessoas trans, o Brasil caminha para se tornar um centro de referência internacional nesse segmento à medida que mais profissionais acumulam experiência com esse público.

“A cirurgia plástica brasileira é uma especialidade mundialmente reconhecida. Nós temos tradição, conhecimento e técnica de excelência, e isso não será diferente para as cirurgias de redesignação”, afirma.

Tanto a técnica convencional (metoidioplastia) quanto a TCM começam de forma semelhante, com o uso de testosterona para aumentar o clitóris e possibilitar a construção de um pênis. A principal diferença surge durante a etapa de liberação dos tecidos internos.

Na convencional, realizada em diversos países, o cirurgião pode cortar ou não o ligamento suspensor, que conecta o clitóris ao osso púbico. Na TCM o corte é obrigatório, e os corpos cavernosos do clitóris são descolados da pelve e reposicionados. O objetivo é exteriorizar uma porção maior do tecido, aumentando o comprimento visível do falo.

“Na convencional, o pênis fica, no máximo, com 3,5 a 4 centímetros de comprimento, o que não permite a penetração nem urinar em pé, porque continua fixado ao osso. Já a TCM praticamente dobra o tamanho do falo, chegando a cerca de 6 a 8 centímetros”, diz Barroso.

Outra etapa é a escrotoplastia, procedimento em que os grandes lábios são remodelados para formar uma bolsa escrotal. Em um segundo momento, podem ser inseridas próteses de silicone para reproduzir a aparência anatômica dos testículos.

A TCM pode ser realizada em uma ou duas etapas. A principal diferença entre as duas abordagens está na reconstrução da uretra.

Já na abordagem em dois tempos, a reconstrução da uretra é dividida em fases. Na primeira, é retirado um enxerto de mucosa da parte interna da boca. Esse tecido é utilizado para preparar o futuro canal urinário, mas a uretra não é fechada completamente. Após um período de cicatrização de cerca de seis meses e o uso de uma sonda, o paciente retorna para uma segunda operação, mais simples, na qual a uretra é definitivamente fechada e conectada à ponta do novo falo, que, por sua vez, é recoberto com a pele natural da região.

Na cirurgia em tempo único, o paciente já sai com a reconstrução concluída, embora haja o risco de ocorrer uma fístula uretral, uma pequena abertura ao longo do trajeto recém-criado.

A operação dura entre cinco e sete horas, dependendo se for realizada em um ou dois tempos. Após a operação, o paciente permanece internado por aproximadamente quatro dias, sem necessidade de UTI ou transfusão de sangue.

A partir da alta hospitalar, ele continua no Brasil em recuperação, totalizando cerca de três semanas a um mês até estar apto a embarcar de volta ao país de origem. (Com informações do jornal A Folha de S. Paulo)

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