Quinta-feira, 09 de Julho de 2026

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O que acompanhamos nas últimas duas semanas me fez lembrar de momentos em que estava convencido de que jamais voltaria a assistir a algo semelhante.

Quando comecei minha jornada de trabalho nos canteiros de obras, em 1980, fui testemunha do quanto aquele triste momento da política brasileira deixou marcas na vida de nós, trabalhadores, das mulheres, dos afrodescendentes, dos ativistas culturais, da imprensa e daqueles que sequer podiam exercer livremente sua opção de gênero. Para alguns, nem marcas ficaram. Vidas foram levadas. Em alguns casos, familiares ainda hoje não sabem o paradeiro de seus entes queridos.

No movimento sindical, tivemos várias mulheres que demonstraram coragem, lutaram pela liberdade e enfrentaram o regime ditatorial. Uma delas foi Conceição Imaculada de Oliveira, que liderou a greve de Contagem, em 1968. Em razão de sua atuação sindical, tornou-se alvo da repressão, foi presa enquanto estava grávida e submetida à tortura no DOPS, em Belo Horizonte.

Foi no movimento dos trabalhadores que comecei a compreender a importância da atuação sindical na defesa dos nossos direitos, da liberdade e da democracia. Isso aconteceu no canteiro de obras onde trabalhava, por meio do jornal Marreta, criado em 1980. Por meio dele, eram divulgadas mobilizações em defesa das conquistas trabalhistas e contra o regime da época.

Em 1983, o sindicato participou da organização da greve geral que reuniu milhares de trabalhadores no Largo da Prefeitura, em Porto Alegre, além de integrar o movimento Diretas Já. Foi o pior momento que vivenciei. Achei que jamais voltaria a presenciar algo semelhante. Infelizmente, é indiscutível que alguns ainda queiram e tentem.

Ao assistir, por dever de ofício, ao vídeo do neto do ditador afirmando que “mulher vota, estatisticamente, muito mal” e, mais do que isso, que mulheres casadas votam melhor por influência dos maridos, fiquei pensando: que absurdo.

Ao prever as críticas à sua declaração, ele ainda utilizou palavras de deboche que nem merecem ser reproduzidas aqui. Mas o que esperar de alguém que foi criado sob o manto da ditadura e que foi se abrigar em um país onde existem movimentos contrários ao voto feminino?

Todos esses grupos estão alinhados ao trumpismo e a segmentos religiosos que defendem a revogação da emenda que garantiu o direito de voto às mulheres americanas, proposta em 1878 e aprovada em 1919. Mais de cem anos depois, Paulo Figueiredo volta a defender, ainda que indiretamente, o fim do voto feminino.

Aliás, esse brasileiro, que já teve um empreendimento no país, o Hotel Trump Rio, chegou a ser preso temporariamente em Miami pela imigração norte-americana por problemas relacionados aos seus documentos de permanência, em meio ao desenrolar da Operação Circus Maximus, da Polícia Federal. A operação investigava um esquema de fraudes e pagamento de propinas em fundos de pensão da Caixa Econômica Federal envolvendo esse hotel.

No Brasil, também existem movimentos alinhados a esse pensamento machista. O partido Missão, ligado ao MBL, defende, em sua cartilha ideológica, a chamada “democracia familiar” e o fim do voto universal. No Brasil contemporâneo, essa proposta aparece no chamado Livro Amarelo, documento que reúne as diretrizes ideológicas do partido.

Nesta semana, também assistimos a um pré-candidato afirmar que o país vive o “pior momento”. Fica evidente a tentativa equivocada de algumas lideranças de utilizar suas crenças e interesses para atacar conquistas históricas e o respeito a todos os brasileiros que defendem a igualdade e a liberdade, sejam trabalhadores ou empresários.

Inclusive, a expressão utilizada na audiência tornou-se um fantasma para aqueles que empreendem no setor de produtos destinados à exportação. Além do desemprego, a consequência poderá ser que a história construída por essas empresas — ou à qual deram continuidade — fique apenas no passado.

A expressão “pior momento” chama a atenção, mas precisa servir para uma reflexão ainda maior. O verdadeiro pior momento de um país acontece quando direitos são colocados em dúvida, quando a democracia é enfraquecida, quando a igualdade perde espaço e quando interesses ideológicos se sobrepõem aos interesses do povo brasileiro.

Portanto, não podemos apenas assistir à possibilidade da volta desse pior momento. Quem constrói casas e prédios sabe que nenhum alicerce resiste quando suas bases começam a ser retiradas. Com a democracia acontece exatamente o mesmo.

Gelson Santana
Presidente do STICC -Secretário Nacional dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil, Construção Pesada e em Montagem Industrial UGT

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