Segunda-feira, 17 de Agosto de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 17 de agosto de 2026
Durante muito tempo, eu dizia que tinha princípios. E tinha…
O problema é que alguns deles eram negociáveis. Não me orgulho disso. Mas também não pretendo reescrever minha biografia para parecer melhor do que fui.
Houve um tempo em que minhas convicções eram, digamos, flexíveis. Dependendo da oportunidade e, principalmente, do dinheiro envolvido, encontrávamos argumentos convincentes para explicar por que certas concessões pareciam corretas quando nos convinham.
Somos muito criativos nessas horas. Chamamos interesse de oportunidade, conveniência de estratégia e omissão de prudência. Até aquilo que jurávamos ser inegociável ganhou uma tabela de preços.
Já ganhei entre oito e quinze mil reais por mês no meio artístico. Mais tarde, fui jornalista de campo por cerca de dois mil e quinhentos e, curiosamente, nunca fui tão feliz…
Foi quando entendi uma coisa que talvez os boletos não gostem de ouvir: dinheiro é importante. Paga contas, compra comida e nos permite ajudar quem amamos.
Mas há coisas que ele não compra. Entre elas, a paz…
Hoje minhas ambições são mais simples. Contas pagas, geladeira cheia, segurança para amanhã e o privilégio de colocar a cabeça no travesseiro sem precisar negociar comigo mesmo antes de dormir.
Talvez seja pouco para alguns. Para mim, tornou-se uma fortuna. Nos últimos anos, construí o Conexão Metropolitana do jeito que acredito que jornalismo e entretenimento possam coexistir.
Quem entra naquele estúdio não entra para ser emboscado. Pode pensar diferente de mim e enxergar o mundo por outra janela. Ainda assim, será bem recebido.
Uma caneca, água, um chocolatinho. Pode parecer bobagem. Para mim, não é. São detalhes dizendo: fique à vontade, você é bem-vindo aqui.
Eu não preciso concordar com alguém para ouvi-lo. Ouvir apenas quem concorda conosco talvez seja uma maneira eficiente de passar a vida sem aprender nada.
No passado já dei prioridade apenas aos meus interesses. Mas o tempo mudou meus valores. Percebi que felicidade tinha menos relação com grandes conquistas e mais com coisas simples. E que boas atitudes traziam paz, enquanto as duvidosas deixavam alguma conta para depois.
Foi aos poucos, assim como minha conexão com Deus. Até que, recentemente, a vida resolveu colocar esses valores à prova.
Havia dinheiro envolvido. Havia interesses. Havia portas que poderiam continuar abertas — ou simplesmente fechar.
Tudo dependia de uma decisão minha. Esperavam apenas uma pequena concessão editorial. Não fiz. Muito pelo contrário: talvez tenha perdido dinheiro e oportunidades.
Mas aconteceu uma coisa curiosa: eu fiquei em paz. Minha mãe costuma dizer que, quando sentimos paz no coração depois de uma decisão, é Deus confirmando que estamos no caminho certo. Carrego isso comigo.
Hoje, eu oro mais antes de decidir. Penso. Escuto. Pergunto. Entrego. Não significa que todas as decisões darão certo. Significa apenas que algumas decisões podem dar errado sem que nós tenhamos errado.
Fazer a coisa certa não vem com garantia de recompensa. Às vezes, custa dinheiro. Uma promoção. Um cliente. Uma amizade. Uma oportunidade.
Essa talvez seja a parte sobre ética que esquecem de colocar nas frases bonitas das redes sociais. Ser correto pode custar caro. A questão é saber quanto custa ser o contrário.
Talvez, para ganhar vantagem, você esconda uma informação. Puxe o tapete de um colega. Leve o crédito por uma ideia que não foi sua. Omita um defeito para fechar uma venda.
Pequenos atalhos. Alguns tão pequenos que quase não parecem errados.
E é justamente assim que começamos. Ninguém acorda numa terça-feira, toma café e decide: a partir de hoje serei um canalha.
Nós vamos cedendo aos poucos. Uma pequena justificativa aqui. Uma vantagem ali. Uma consciência silenciada acolá. Até o dia em que fazemos tanto barulho para justificar nossas escolhas que já não conseguimos ouvir quem somos.
Se existe uma lei de causa e efeito ou uma contabilidade cósmica registrando cada rasteira que damos, eu não sei afirmar. Mas sei que algumas atitudes cobram sua dívida ainda em vida.
Talvez, por isso, eu tenha perdido o encanto pelos atalhos. Prefiro chegar um pouco depois. Prefiro o caminho mais longo.
Quero chegar cansado, talvez. Mais velho, certamente. Quem sabe até com menos dinheiro do que poderia ter acumulado.
Mas gostaria de olhar para trás e encontrar respeito. Amigos, saudades e gente que discordou de mim, mas nunca precisou duvidar de quem eu era de verdade.
A vida já é curta demais para chegarmos ao destino carregando cadáveres morais pelo caminho.
Hoje continuo querendo crescer. Continuo tendo sonhos. Continuo gostando e precisando de dinheiro — não vamos exagerar na santidade.
Mas existe uma coisa que não está mais à venda. Eu…
Porque sucesso algum pode compensar o preço de abandonar a pessoa que você precisará encontrar, todos os dias, diante do espelho.
* Fabio L. Borges, jornalista, cronista e poeta gaúcho