Terça-feira, 15 de Setembro de 2026

Home Saúde “Solidão funcional”: pessoas com uma vida social muito ativa podem se sentir sozinhas, afirmam psicólogos

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A solidão nem sempre está relacionada ao isolamento. Especialistas explicam como relações superficiais podem alimentar a sensação de desconexão mesmo quando uma pessoa está constantemente cercada por outras.

“Não há nada mais solitário do que estar em um relacionamento ruim.” A frase do sociólogo americano Eric Klinenberg, pesquisador da Universidade de Nova York, resume um paradoxo cada vez mais comum: a solidão também pode existir em meio a conversas, compromissos e uma agenda social cheia.

“Estamos hiperconectados, mas muitas vezes emocionalmente desvinculados”, afirma a psicóloga Denise Orellano. “Compartilhamos informações, memes, histórias, mas raramente falamos sobre nossas vulnerabilidades, sobre o que realmente estamos vivendo.”

É nesse contexto que ganha espaço o conceito de solidão funcional. Não significa ausência de relacionamentos, mas a existência de vínculos que cumprem funções práticas, como trabalhar, praticar esportes ou organizar atividades, sem necessariamente proporcionar conexão emocional profunda.

“Há pessoas que têm muitas atividades sociais, mas suas relações são muito instrumentalizadas”, explica a psicóloga espanhola Silvia Álava Sordo. “Com uma pessoa, encontram-se para fazer esporte; com outra, para trabalhar; com alguém mais, para organizar algum plano. No entanto, nem sempre existe alguém com quem conversar sobre o que realmente importa.”

Segundo especialistas, a diferença fundamental está entre presença social e apoio emocional. Uma pessoa pode ter muitos contatos e, ainda assim, não sentir que possui alguém em quem realmente possa confiar.

“São os relacionamentos próximos que mantêm as pessoas felizes ao longo da vida”, resume a psicóloga Lucía Argibay. Segundo ela, “os vínculos protetores têm um elemento central: permitem que a pessoa se sinta compreendida sem precisar esconder partes de si mesma”.

A solidão funcional pode provocar uma sensação de invisibilidade emocional: estar cercado de pessoas e sentir que ninguém conhece verdadeiramente o mundo interior do indivíduo.

“Eu tinha grupos para tudo: academia, trabalho, faculdade, corrida. Sempre estava falando com alguém”, conta Roxana M., de 38 anos. “Mas um dia percebi algo desconfortável: se realmente acontecesse algo importante comigo, eu não saberia para quem ligar. Havia pessoas, mas não havia espaço para mostrar o que eu estava sentindo.”

Outro relato ilustra a mesma experiência. “Eu passava horas conversando com muitas pessoas e, ainda assim, voltava para casa com a sensação de que ninguém sabia realmente o que estava acontecendo comigo.”

Para os especialistas, relacionamentos emocionalmente significativos exigem tempo, reciprocidade e vulnerabilidade.

“Os vínculos que realmente protegem a saúde mental são construídos com tempo e com conversas que vão além da superficialidade”, afirma Álava Sordo.

As redes sociais também podem contribuir para esse paradoxo. Elas multiplicam os contatos, mas nem sempre aprofundam as relações. Além disso, a comparação constante com versões idealizadas da vida dos outros pode aumentar a sensação de inadequação.

“As redes sociais mostram versões idealizadas da realidade. Ao se compararem com essas imagens, algumas pessoas sentem que suas vidas são menos interessantes ou menos bem-sucedidas”, alerta Orellano.

Como evitar

A principal recomendação é trocar quantidade por profundidade. Isso significa investir em alguns vínculos capazes de oferecer escuta, confiança e apoio.

“Criar espaço para conversas mais honestas nos vínculos já existentes. Quando alguém compartilha uma dificuldade ou uma emoção, convida o outro a fazer o mesmo”, sugere Orellano.

Os especialistas também recomendam priorizar encontros presenciais, reduzir a dispersão provocada pelo celular e reservar tempo para conversas sem pressa.

“Na interação presencial aparecem nuances que não existem nas mensagens escritas: gestos, silêncios e olhares. Esses elementos permitem compreender melhor o outro e fortalecer a empatia”, destaca Argibay.

Permitir-se demonstrar vulnerabilidade também é importante. “Compartilhar as próprias dificuldades permite que o outro se aproxime de forma mais autêntica”, explica Orellano.

No fim, a qualidade da vida social não depende da quantidade de pessoas ao redor, mas da existência de vínculos nos quais seja possível ser ouvido, compreendido e aceito.

“Quem aprende a estar bem consigo mesmo costuma buscar a convivência com os outros por desejo, e não por carência”, afirma Klinenberg. (Com informações do La Nacion)

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