Segunda-feira, 06 de Julho de 2026

Home em foco Trump transforma aniversário dos Estados Unidos em vitrine política, e festa de 250 anos expõe divisão do país

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Norte-americanos saíram às ruas em diversas cidades dos Estados Unidos no sábado (4) para celebrar os 250 anos da independência do país, em uma data marcada por pressões, conflitos e polêmicas. O aniversário histórico, planejado durante quase uma década para servir como um momento de união nacional, transformou-se em uma disputa sobre quem tem o direito de definir a narrativa da história americana e o significado do patriotismo.

O planejamento das celebrações começou em 2016, quando o Congresso criou a comissão bipartidária America250 para coordenar eventos em todo o país. A proposta previa uma programação nacional voltada à educação, à cultura e à participação popular.

O cenário mudou após o retorno de Donald Trump à Casa Branca. Em janeiro de 2025, o presidente assinou um decreto criando a Freedom 250, grupo encarregado de organizar os principais eventos federais em Washington.

A decisão dividiu as comemorações em duas frentes. Na capital americana, a Freedom 250 promoveu uma programação centrada na figura de Trump. Ao mesmo tempo, a America250 organizou, em Los Angeles, um espetáculo com foco na diversidade cultural.

A mudança também alterou os planos originalmente elaborados para Washington. Documentos preparados em 2024 previam um desfile com carros alegóricos representando diferentes comunidades, um festival cultural organizado pelo Smithsonian Institution e apresentações musicais espalhadas pelo país.

Após a criação da Freedom 250, parte dessas iniciativas foi substituída pela Great American State Fair, feira patriótica inaugurada por Trump. Pelo menos nove estados decidiram não participar diretamente do evento.

Personalismo

No entanto, a efeméride dos 250 anos parece seguir um caminho diferente na história política do país. Professor de Relações Internacionais da ESPM, Roberto Uebel afirma que a tendência é que a comemoração seja marcada pelo apelo personalista do presidente.

Essa mudança de perspectiva e o tom mais personalista trazem reflexos para a projeção internacional do país. Embora os Estados Unidos ainda se projetem globalmente como uma superpotência nos aspectos político, econômico e cultural, as ações do segundo mandato de Trump colocam à prova os tradicionais valores norte-americanos de liberdade, individualidade, justiça e democracia, explica Uebel.

“A gente vê o Trump em evidência. Ele no passaporte, ele na moeda comemorativa, enfim, ele tenta trazer isso para si. É uma festa do Trump, não dos Estados Unidos”.

Segundo Uebel, esses valores passam a ser questionados pela comunidade internacional — incluindo potências rivais como Rússia e China, e até mesmo aliados históricos como a União Europeia e o Reino Unido.

Disputa pela narrativa

Desde a campanha presidencial de 2023, Trump prometia realizar uma celebração que duraria um ano inteiro e seria a maior festa de independência já promovida por um país. Após seu retorno à Casa Branca, o republicano transformou o aniversário de 250 anos em uma das principais vitrines de seu governo.

Além da feira nacional, Trump promoveu um desfile militar, um evento do UFC nos jardins da Casa Branca e passou a defender uma abordagem baseada no que chama de “história patriótica”.

A estratégia provocou críticas de opositores e de integrantes da própria comissão criada pelo Congresso.

O senador democrata Alex Padilla afirmou que o presidente transformou o aniversário da independência em uma plataforma de promoção pessoal. “Ele não conseguiu evitar transformar o aniversário de 250 anos dos Estados Unidos em algo voltado para si mesmo”, disse.

Polarização

As comemorações nacionais funcionam como um termômetro para avaliar o estado de uma nação, segundo o professor associado de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Oliver Stunkel. Ele explica que esses eventos acabam sendo “um espelho do presidente” e da narrativa dominante sobre o passado, o presente e o futuro do país, revelando muito sobre o cenário político atual.

Como exemplo prático dessa dinâmica, Stunkel aponta para a profunda polarização política observada nos Estados Unidos.

Ele avalia que iniciativas como a Freedom 250 não se limitam à organização de eventos, mas expressam uma leitura específica do passado. “Esse projeto é totalmente uma interpretação da história alinhada ao trumpismo e utilizada como instrumento político”, afirma. (Com informações do g1)

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