Domingo, 30 de Agosto de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 30 de agosto de 2026
Um homem de 48 anos se tornou o primeiro paciente do mundo a passar por uma cirurgia cerebral realizada com auxílio de inteligência artificial (IA) em tempo real. Durante o procedimento, médicos conseguiram remover com sucesso um tumor localizado na hipófise, região delicada do cérebro.
Rhys Hibbert, pai de dois filhos e morador de Bedfordshire (Reino Unido), poderia ter perdido a visão caso não fosse submetido à operação, segundo os cirurgiões do University College London Hospital.
Durante a cirurgia, uma ferramenta de IA analisou as imagens do procedimento em tempo real e orientou os médicos sobre como evitar vasos sanguíneos e nervos importantes do cérebro que não podiam ser vistos diretamente.
Com o auxílio da tecnologia, os cirurgiões conseguiram retirar com segurança o máximo possível do tumor. “Do ponto de vista da segurança do paciente, vejo claramente os benefícios. Não existem placas de sinalização dentro da nossa cabeça”, afirmou Hibbert à BBC.
Até cerca de 18 meses atrás, Hibbert era saudável e mantinha uma rotina ativa. Todos os dias, durante o horário de almoço, ele costumava caminhar cerca de três quilômetros.
Foi durante uma dessas caminhadas que ele perdeu a consciência e começou a ter convulsões no meio da rua.
Um exame de imagem revelou um tumor benigno de 11 milímetros, em crescimento, na hipófise, uma glândula com aproximadamente o tamanho de uma bolinha de gude, localizada na base do crânio.
A hipófise produz hormônios essenciais para diversas funções do organismo, incluindo o crescimento, o metabolismo e o controle da pressão arterial e da temperatura corporal.
O problema é que a glândula fica muito próxima das artérias carótidas, vasos fundamentais responsáveis por levar sangue ao cérebro, e dos nervos ópticos, que estão diretamente ligados à visão.
Conforme o tumor começou a pressionar os nervos ópticos, o campo de visão periférica de Hibbert foi ficando cada vez mais estreito.
Embora não precisasse passar por cirurgia imediatamente, Hibbert começou a tropeçar nas coisas e passou a sentir um cansaço extremo e tonturas. “Durante os 18 anos de casamento, sempre levantei da cama e preparei uma xícara de café para minha mulher. E eu não ia deixar que esse tumor me impedisse de fazer isso”, afirmou.
Segundo ele, os principais impactos da doença foram emocionais e psicológicos. “Apesar de muitas pessoas terem se oferecido gentilmente para me ajudar, você não quer ser um peso para os outros”, acrescentou.
Quando os cirurgiões ofereceram a ele a oportunidade de ser o primeiro paciente a passar por uma cirurgia desse tipo com o auxílio de uma ferramenta de IA, Hibbert não hesitou. “Se os pacientes não estiverem dispostos a participar de pesquisas, como os médicos poderão aprender e como a medicina poderá avançar?”, disse.
IA
O procedimento foi realizado com a introdução de um endoscópio, câmera fina acoplada a uma haste, pelo nariz até a base do crânio. Ao chegar à região do tumor, os médicos encontraram uma dificuldade: a lesão estava próxima, mas escondida atrás de camadas de osso e de uma membrana resistente.
Identificar o ponto mais seguro para iniciar a remoção não era uma tarefa simples. Além da complexidade da região, a anatomia pode variar de uma pessoa para outra.
As taxas de complicações também são relevantes. Havia entre 25% e 50% de chance do tumor não ser completamente removido e entre 0,5% e 2% de risco de lesão de um vaso sanguíneo importante.
Foi nesse momento que a ferramenta de IA entrou em ação. Em uma segunda tela, o sistema analisava as imagens da cirurgia em tempo real, acompanhava os instrumentos utilizados pelos médicos e indicava as regiões onde era mais provável encontrar vasos sanguíneos e nervos. A ferramenta também destacava os locais considerados mais seguros para a remoção do tumor.
O funcionamento é semelhante ao de sistemas de reconhecimento facial presentes em celulares. A diferença é que, em vez de identificar rostos, a IA foi treinada para reconhecer estruturas anatômicas importantes que muitas vezes ficam escondidas durante a cirurgia.
No Reino Unido, um cirurgião realiza, em média, entre dez e 20 operações desse tipo por ano. Para se preparar para cada procedimento, os médicos utilizam exames realizados antes da cirurgia para conhecer a anatomia específica do paciente.
Os pesquisadores treinaram e avaliaram o sistema de IA usando centenas de vídeos de cirurgias para remoção de tumores da hipófise. Em cada gravação, os vasos sanguíneos e nervos eram cuidadosamente contornados para fornecer dados ao sistema e ajudá-lo a aprender a reconhecer as estruturas mais importantes.
“Ele foi treinado com mais cirurgias do que a maioria dos cirurgiões vê ou realiza ao longo de toda a carreira e pode funcionar como um segundo par de olhos especializado”, explicou o professor Hani Marcus, que ajudou a realizar o procedimento.