Segunda-feira, 26 de Fevereiro de 2024

Home em foco “É fundamental ir atrás do dinheiro de Putin”, diz investidor expulso da Rússia

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“Ordem de bloqueio — uma história real sobre corrupção e assassinato no governo Putin”, lançado no Brasil pela Intrínseca, começa com a prisão de Bill Browder pela Interpol, a pedido da Rússia, na primeira metade de 2018, em Madri.

O investidor de 57 anos viajara à Espanha para se encontrar com o procurador José Grinda, célebre por sua cruzada contra a máfia russa. E só escapou da extradição para Moscou porque conseguiu clicar seus algozes do banco de trás do carro da polícia e tuitar a cena, alertando a comunidade internacional.

CEO da Hermitage Capital Management, Browder foi, com a ajuda do sócio Edmond Safra, o maior investidor privado na Rússia pós-comunismo, onde fez fortuna até ser expulso do país, em 2005, após denunciar o toma lá dá cá de oligarcas próximos a Putin em empresas como a Gazprom.

Em 2007, seu advogado, o russo Sergei Magnitsky, que o ajudou a revelar o esquema de corrupção, foi preso em Moscou. Apareceu morto na cadeia em 2009.

Desde então, Browder se tornou um apóstolo da Lei Magnitsky, sancionada por Barack Obama em 2012, que autoriza o governo dos EUA a punir violadores dos direitos humanos, congelar seus ativos e proibi-los de entrar no país. É inspiração, conta o autor, para sanções a indivíduos próximos de Putin impostas por vários dos 34 países signatários após a invasão da Ucrânia.

Browder foi condenado nos tribunais russos a 18 anos de cárcere e segue recebendo ameaças de morte. Em 2018, tremeu quando o então presidente Donald Trump considerou uma “oferta incrível” a proposta de Putin de trocá-lo por 12 agentes russos acusados de sabotarem a campanha de Hillary Clinton à Casa Branca.

De origem americana, Browder, no entanto, é cidadão britânico. “A invasão da Ucrânia mudou o cenário. Autoridades que me consideravam alarmista agora concordam que, para enfrentar Putin e os oligarcas, é fundamental ir atrás de seu dinheiro”, diz.

1) No começo do mês, Anatoly Chubais, o mais graduado integrante do governo russo a condenar a invasão da Ucrânia, foi hospitalizado na Itália. Suspeitou-se de envenenamento. O senhor vive com medo?

Acompanho com atenção a evolução médica de Chubais (o diagnóstico foi doença imunológica). Não vou dizer que já me acostumei, mas desenvolvi habilidades, protocolos e hábitos para diminuir a possibilidade de que algo como (envenenamento) aconteça comigo. É impressionante que mesmo após a invasão da Ucrânia, o Ocidente continue tratando Putin como um líder legítimo. O propósito central da Presidência dele é o de enriquecer às custas do Estado. Putin não é apenas um presidente de um Estado soberano, mas um comandante de organização criminosa.

2) O senhor teve alguma satisfação com a perda de credibilidade de Moscou no Ocidente após a invasão da Ucrânia?

Não. O que sinto é indignação. Alertei por tanto tempo e fui majoritariamente ignorado. Foi preciso uma tragédia humana deste tamanho, em escala inimaginável, com mulheres estupradas, crianças assassinadas, destruição imensa, para se ver o óbvio. Poderíamos ter prevenido isso, ter tido uma reação mais robusta (contra Putin) após as invasões, assassinatos, extradições e envenenamentos anteriores. Por que não agimos?

3) Havia muito dinheiro em jogo…

Exatamente. Putin foi hábil em identificar aliados dispostos a se corromper nos EUA, Reino Unido e Europa Continental. O mais visível são os apartamentos luxuosos, os iates, os bancos com contas polpudas de oligarcas russos. Mas e os escritórios de advocacia que defendem seus interesses? E as agências de propaganda? E os detetives acionados contra seus opositores? E os lobistas? E o financiamento de campanhas políticas? Houve e há dinheiro suficiente para comprometer as democracias ocidentais. As pessoas podem ser muito mais baratas do que imaginamos quando decidem negociar sua integridade. Mas não foi só o dinheiro.

4) O que mais?

Medo. Putin é percebido como um homem perigoso e muitos líderes jogaram o “problema russo” pra debaixo do tapete. Obama quis apertar o botão de “reset”. Trump queria ser “amigo” de Putin. E Joe Biden defendia uma “política previsível” para Moscou.

5) A guerra já dura mais de cinco meses. Quando terminará?

Infelizmente não tão cedo. Os ucranianos estão focados em expulsar o invasor. E Putin precisa estar em guerra, sabe que a opinião pública russa não tolera um líder percebido como fraco. Internamente, a invasão subiu sua aprovação para 83%, silenciou a mídia independente e as redes sociais. O totalitarismo russo, até o momento, se fortaleceu.

6) Mas o preço em vidas humanas, inclusive russas, é alto…

Putin não está preocupado com isso, com a Otan ou um conflito nuclear. Sua aposta é a de que a inflação alta e constante imporá mudanças políticas no ocidente e as sanções serão retiradas. Aí ele estará no mundo ideal: petróleo nas alturas, alta aprovação interna e dinheiro no bolso.

7) As sanções foram aplicadas tarde demais?

Se tivessem sido aplicadas antes, poderíamos ter evitado a guerra. Como punição, funcionaram ao asfixiar a economia russa. Não há mais quase nenhuma corporação ocidental no país e o gás vendido pela Rússia diminui a passos largos. Amigos russos me dizem que é como se tivesse sido imposto um atraso de 30 anos ao país desde a invasão.

 

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