Terça-feira, 14 de Abril de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 14 de abril de 2026

No vocabulário da indústria, certas frases não são apenas desabafos. São diagnósticos. E, quando Paulo Skaf decide definir o Brasil como um país de “economia hostil e bipolar”, o que se tem não é um efeito de estilo, mas uma leitura de ambiente feita por quem há anos circula entre decisões políticas e o humor do setor produtivo.
A fala ocorreu em Porto Alegre, durante o INDX, evento do Sistema FIERGS, num encontro que, por si só, já carrega um simbolismo: a tentativa de aproximar federações industriais em um momento em que cada região do país parece reagir de forma diferente ao mesmo cenário econômico.
Skaf começou no modo institucional, mas rapidamente escalou para o tom que costuma agradar plateias empresariais: o da inquietação. Disse que o Brasil tem vantagens evidentes, mas convive com um problema recorrente — falta de coordenação. E, no meio da frase, deixou escapar a síntese que virou manchete: “Nosso maior problema é uma economia hostil e bipolar”.
Na tradução menos diplomática, o recado é conhecido nos corredores da indústria: o país até ensaia crescer, mas muda as regras, o custo e a previsibilidade no meio do caminho. E isso, para quem investe em máquina, emprego e ciclo longo, vale mais do que qualquer discurso otimista de conjuntura.
A crítica mais dura veio, como de costume, da política monetária. Sem rodeios, Skaf mirou o nível de juros e o impacto direto na atividade produtiva. “Nenhuma economia real aguenta juros reais nesse patamar. Isso não combate só inflação, isso esfria investimento e emprego”, afirmou.
Nos bastidores do evento, a leitura é simples — e repetida em conversas privadas por empresários: o crédito no Brasil não é apenas caro, ele é proibitivo para expansão. O resultado aparece na postergação de projetos, na cautela exagerada e numa indústria que, apesar de tecnicamente competitiva, opera em modo defensivo.
Se no tema interno o recado foi duro, no externo o tom foi de alerta prático. Ao citar as tensões envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, Skaf trouxe um elemento que costuma passar despercebido em debates macroeconômicos: a vulnerabilidade logística do Brasil.
O foco foi o diesel. E aqui a fala ganhou quase um tom de bastidor técnico: cerca de 30% do consumo brasileiro depende de importação. Em tradução direta, qualquer oscilação no Oriente Médio não chega como notícia internacional — chega como custo de frete, inflação e pressão na cadeia produtiva.
“O pior não é o preço alto. É faltar produto. Se faltar diesel, você para o país”, disse. A frase, dita sem dramatização, funciona como aquele tipo de aviso que o setor produtivo leva mais a sério do que qualquer indicador trimestral.
O capítulo trabalhista também entrou no radar, com a discussão sobre a escala 6×1. Skaf não entrou no jogo de negar a pauta — o que seria politicamente ingênuo — mas criticou o timing e o uso do tema como bandeira. “Isso precisa ser discutido com serenidade, não como disputa eleitoral”, afirmou.
A leitura, nos bastidores, é que esse tipo de debate, quando acelerado politicamente, tende a ignorar uma realidade incômoda: o Brasil não tem uma estrutura produtiva uniforme. E tentar encaixar indústria, comércio, saúde e agro no mesmo molde é, na prática, legislar sobre exceções como se fossem regra.
“Cada setor tem sua lógica”, resumiu. E, na linguagem da indústria, isso significa algo mais direto: o risco de decisão mal calibrada é empurrar parte do mercado para a informalidade.
Ao lado de Skaf, o presidente do Sistema FIERGS, Claudio Bier, reforçou o movimento de aproximação entre federações. Mas, mais do que discurso de palco, o que se percebe é uma tentativa de reorganização política do setor industrial — algo que vai além de eventos e entra no campo da influência.
Há um movimento silencioso em curso: a indústria tentando voltar ao centro das decisões, depois de anos orbitando debates fragmentados. E esse tipo de articulação, especialmente entre Sul e Sudeste, não é apenas institucional — é estratégica.
No fim, o evento entregou menos novidades e mais confirmação. A de que o diagnóstico da indústria brasileira permanece o mesmo, mas agora com menos paciência para ser suavizado.
Skaf, ao falar em economia hostil e bipolar, não apresentou uma tese nova. Apenas deu nome mais direto a um sentimento antigo: o de que o Brasil continua sendo um país em que o potencial é grande, mas a previsibilidade é pequena.
E, no mercado, previsibilidade costuma valer mais do que promessa. (por Gisele Flores – gisele2pampa.com.br)