Quinta-feira, 21 de Maio de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 20 de maio de 2026
A epidemia de solidão e de transtornos mentais levou muitas pessoas a buscar na inteligência artificial generativa a figura de um conselheiro ou terapeuta. Esse tipo de uso, porém, pode iludir e trazer mais isolamento e sofrimento psíquico, segundo alerta feito pelo psicanalista Christian Dunker, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), em entrevista ao Pulsa.
Ele diz que ferramentas como o ChatGPT são desenvolvidas para agradar o usuário e ratificar suas crenças. Esse perfil bajulador, afirma, pode até produzir alívio imediato, mas, ao não trazer reflexões incômodas próprias de um processo terapêutico, acaba reforçando ideias problemáticas e agravando sofrimentos.
“O ChatGPT está fascinado por dizer o que você quer. […] E não vá dizer que isso é a cura para o mal universal da baixa autoestima. A gente gosta disso e acha que isso cura, mas cura até a página três e, depois, pode ser bem pior, porque as suas ideias problemáticas vão ser confirmadas”, diz o especialista.
Dunker afirma que manter a saúde mental em tempos de hiperconexão e relações permeadas pela tecnologia requer preservar espaços de experiência fora das plataformas. Para ele, o uso saudável exige ampliar repertórios, circular entre linguagens e não se deixar capturar pela lógica da facilidade permanente. Do contrário, adverte, “você morre de embolia narcísica”.
O psicanalista criticou ainda a cultura da alta performance e das “superpessoas” amplificada pelas redes sociais, atribuindo a ela parcela da culpa pela atual crise de saúde mental. Para Dunker, a busca pelo desempenho máximo cria uma despersonalização que aumenta o sofrimento emocional.
Ele diz que essa despersonalização também acontece na medicina, no tratamento de transtornos mentais. Ele critica o que chama de “homogeneização da linguagem da ciência”, alegando que, no caso dos distúrbios psíquicos, seria necessário considerar as nuances e a realidade de cada sujeito.
Leia abaixo os principais trechos da entrevista.
Muitos dos seus livros tratam da questão dos relacionamentos, sobre como eles se constroem. E, hoje, a gente vê os relacionamentos muito permeados pelas tecnologias. Na sua visão, como as tecnologias estão afetando as relações tanto do ponto de vista positivo quanto do negativo?
A chegada de novas tecnologias inventa novos sujeitos, novas almas, novas formas de estar no mundo. E aí a gente vai ter tanto uma certa resistência ao novo quanto aquela turma que vai experimentar, criar e explorar as novidades e usos não previstos daquela tecnologia. Então, a gente pode descrever uma ampla gama de efeitos imprevidentes: o uso de tecnologias digitais para articular afetos e para monetizar afetos destrutivos, como ódio, competitividade, identidades em confronto, para exacerbar e tracionar aquilo que já era um problema antes, como racismo, assédio, violência, com uma ausência de mediadores para tratar conflitos. A gente tem que aprender quais são as boas práticas e quais são as práticas problemáticas.
Você tem também um impacto bastante interessante na forma como os amores, os laços, as amizades e as companhias se produzem, em escala muito mais extensa, impensável para gerações anteriores. Então, você tem um gap geracional que vem junto com isso, e que envolve você responder à nova tecnologia com novas formas de sedução, novos entendimentos do que que vem a ser um amor e isso tudo convoca também uma aprendizagem, uma reformulação de quem somos.
Os efeitos mais pervasivos hoje em discussão são sobre a saúde mental, porque se você entra nessa nova tecnologia sem esses mediadores nem cauções, a chance de você produzir formas de sofrimento para as quais a gente não está preparado é muito grande. Então, há uma sincronia entre a chegada de uma nova linguagem – e agora da inteligência artificial – e o que muitos chamam de uma crise na saúde mental.
A gente teve nos últimos anos um debate muito acirrado sobre o real papel das redes sociais no aumento de relatos de transtornos mentais, principalmente entre os jovens. Tivemos o livro Geração Ansiosa, do psicólogo americano Jonathan Haidt, defendendo que as redes sociais são a principal causa do fenômeno, mas muitos especialistas criticaram o livro, alegando que alguns dados estavam enviesados e que a obra tratava a questão de forma simplista. Como você vê essa controvérsia?
É uma ótima questão porque a gente não tem só o trabalho do Haidt, tem a (psiquiatra americana) Anna Lembke, tem inúmeros psiquiatras, psicopatologistas e psicólogos às voltas com esse enfrentamento, essa demanda social. E, de fato, o livro do Haidt reúne muitas pesquisas que são aproximativas, que retratam uma correlação, mas correlação não é causalidade. Mas a causalidade pode ser indireta: isso (tecnologias e redes sociais) afeta processos educativos, relações parentais, que afetam a saúde mental. Então acho que uma pesquisa como essa necessariamente vai incorrer numa espécie de simplificação. Com informações do portal Estadão.