Sexta-feira, 18 de Setembro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 17 de setembro de 2026
O governo Trump exigiu, durante as negociações do primeiro tarifaço de 50% contra o Brasil, que o país permitisse a participação de “dissidentes políticos” nas eleições presidenciais de 2026.
A exigência consta de um documento enviado às autoridades brasileiras pela contraparte americana em outubro de 2025.
“O Brasil se compromete a realizar eleições presidenciais livres e justas em 2026 e não deterá, prenderá nem limitará arbitrariamente, de qualquer outra forma, a participação de dissidentes políticos no processo eleitoral”, diz a minuta proposta pela Casa Branca no formato de uma declaração conjunta.
No total, foram 21 exigências listadas pelo governo americano ao Brasil. Boa parte dos temas incluídos não tinha relação com aspectos comerciais, que deveriam ser o foco do documento.
De acordo com um funcionário do governo brasileiro que teve acesso ao conteúdo, o documento trazia exigências de âmbito político e eleitoral. Em sua avaliação, o material era menos grave do que a carta enviada pelo presidente Donald Trump meses antes para anunciar o tarifaço.
O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) não é citado nominalmente na minuta, e os americanos não especificam se o consideram um dissidente político. A ofensiva tarifária contra o Brasil, porém, tinha o processo penal contra Bolsonaro como pano de fundo.
Quando Trump anunciou o primeiro tarifaço contra o Brasil, com alíquotas de 50%, a principal justificativa foi o que ele chamou de “caça às bruxas” contra Bolsonaro, então réu por tentativa de golpe de Estado.
“A forma como o Brasil tem tratado o ex-presidente Bolsonaro, um líder altamente respeitado em todo o mundo durante seu mandato, inclusive pelos Estados Unidos, é uma vergonha internacional. Esse julgamento não deveria estar ocorrendo. É uma Caça às Bruxas que deve acabar IMEDIATAMENTE!”, escreveu Trump na ocasião.
Além das exigências de cunho eleitoral, o documento também pedia que o Brasil se comprometesse a não introduzir regime de competição digital que restringisse o comércio americano, numa possível menção ao Pix, e não multasse, detivesse ou congelasse ativos de cidadãos americanos por questões relativas à liberdade de expressão.
A mensagem foi enviada pelos americanos a uma comitiva brasileira que estava em Washington para negociar com representantes da Casa Branca. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, liderava a missão brasileira.
“O embaixador Greer, o secretário Rubio e o ministro Mauro Vieira concordaram em colaborar e conduzir discussões em múltiplas frentes num futuro próximo, estabelecendo um caminho de trabalho conjunto”, disse uma declaração conjunta sobre o encontro, divulgada na ocasião.
O documento circulou pela área técnica do Itamaraty, segundo disse à Folha de S.Paulo um membro da chancelaria sob reserva, mas foi devolvido por ordem de Mauro Vieira. Ele teria comunicado o ocorrido ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Vieira mandou devolver os papéis dizendo que os termos não faziam sentido, pois não há dissidentes nem presos políticos no Brasil. O tema não surgiu na reunião com Rubio e Greer.
De acordo com membros da diplomacia brasileira, o conteúdo da mensagem americana foi considerado inaceitável pelo governo Lula, e os EUA foram comunicados de que o Brasil não negociaria sob aqueles termos.
Integrantes do governo brasileiro familiarizados com o tema dizem que o assunto dos “dissidentes políticos” não apareceu nas conversas entre Lula e Trump realizadas nos meses seguintes. A avaliação é de que a origem do documento são escalões mais baixos do Departamento de Estado americano, onde a oposição ao governo petista é mais forte.
Lula
Em entrevista à rádio Itatiaia nessa quinta-feira (17), Lula classificou o documento dos EUA como um “arquivo morto” para seu governo e disse ser inaceitável que os americanos queiram ter prioridade na riqueza mineral do Brasil.
“Esse documento não foi discutido, não será discutido. Sinceramente não consigo compreender o porquê da publicação desse material exatamente no dia que a gente faz a sanção da lei que regula a questão dos minerais críticos”, disse.
“Aqui no Brasil os minerais críticos são nossos. Vamos explorá-los, transformá-los e vendê-los. Aqui as eleições são nossas. Temos o processo eleitoral mais seguro do mundo. O Trump, se tivesse utilizado o processo brasileiro, não teria o problema de ficar esperando vários dias para saber o resultado eleitoral.”
Questionado sobre um possível encontro com Trump na 81ª sessão da Assembleia Geral da ONU, na próxima terça-feira (22), o presidente brasileiro disse que tem uma boa relação com o republicano, mas que, “quando terminamos a reunião tudo bem, aparece alguém que não está tudo bem”. Ele citou o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio. (Com informações da Folha de S.Paulo)