Terça-feira, 18 de Agosto de 2026

Home Colunistas Vaginismo: quando o corpo diz “não”

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Ela tinha escolhido a roupa com cuidado. O perfume, a música, e a luz mais baixa. Naquela noite, queria apenas estar perto. Sem pressa, sem cobranças, permitindo que o carinho encontrasse seu próprio caminho.

O beijo aconteceu. O abraço demorou. Havia desejo, carinho e intimidade. Até que o corpo dela fechou a porta.

Não foi uma decisão. Não foi falta de amor. Não foi “frescura”. E muito menos falta de vontade. Foi o corpo dizendo não quando, por dentro, ela queria dizer sim.

É assim que muitas mulheres vivem o vaginismo: com um conflito silencioso entre o desejo e uma musculatura que reage involuntariamente diante da tentativa de penetração. O assoalho pélvico se contrai como quem fecha as janelas diante de uma tempestade. E, quando isso acontece repetidamente, a cama que deveria ser lugar de encontro pode começar a parecer território de prova.

Ela começa a antecipar a dor. O marido começa a antecipar a frustração. E os dois, sem perceber, podem transformar uma dificuldade do corpo em uma sentença sobre o relacionamento.

“Será que ele ainda me deseja?”

“Será que eu tenho algum problema?”

“Será que nunca vou conseguir?”

E, entre uma tentativa e outra, nasce uma visitante inconveniente: a culpa. A culpa é péssima companhia para a intimidade. Ela entra no quarto sem convite e começa a dar opinião sobre tudo.

Mas vaginismo não é uma mulher escolhendo fechar o corpo. É justamente aí que precisamos trocar julgamento por compreensão.

O corpo não está quebrado. Ele está respondendo. Às vezes, essa resposta está relacionada a experiências dolorosas, medo, ansiedade, educação sexual repressora, experiências traumáticas ou ao próprio ciclo de expectativa de dor. Existem também fatores físicos que precisam ser investigados. Por isso, não é uma questão de simplesmente “relaxar”.

Se fosse tão fácil, bastaria alguém dizer: “Calma, querida”. E pronto. O corpo abriria um sorriso e responderia: “Ah, era só isso!”

Não funciona assim. O corpo precisa sentir segurança. E segurança não nasce de pressa. Nasce de cuidado.

Por isso, o tratamento pode envolver avaliação ginecológica, fisioterapia do assoalho pélvico e psicoterapia ou terapia sexual, conforme cada caso. O caminho costuma ser progressivo, respeitando os limites da mulher e reconstruindo, pouco a pouco, uma relação de confiança com o próprio corpo.

Não é uma batalha para vencer o corpo. É uma reconciliação com o próprio corpo.

E, talvez, essa seja uma das partes mais bonitas dessa história: quando a mulher deixa de olhar para si como alguém que “falhou” e começa a perceber que existe um corpo tentando protegê-la, algo muda.

Ela para de perguntar: “O que há de errado comigo?”

E começa a perguntar: “Do que eu preciso para me sentir segura?”

É uma pergunta pequena, mas pode abrir uma porta enorme.

Porque intimidade não deveria ser um teste de desempenho. Sexo não é prova de resistência. E casamento não deveria transformar a penetração em um boletim de notas.

Há noites em que amar é beijar. Há dias em que amar é conversar. Há momentos em que o casal precisa simplesmente tirar a obrigação da cama e devolver a ela aquilo que nunca deveria ter perdido: curiosidade, carinho, prazer e liberdade.

O corpo não precisa ser vencido. Precisa ser escutado. Talvez o vaginismo seja, para algumas mulheres, uma porta que aprendeu a permanecer trancada. E portas assim não se abrem aos empurrões. Abrem quando deixam de sentir que precisam se defender.

Com tempo. Com conhecimento. Com cuidado. Com tratamento. E com alguém que compreenda que, às vezes, o maior gesto de amor não é insistir para entrar.

É ter delicadeza suficiente para esperar a porta se sentir segura para abrir. Se você se identificou com essa condição, procure ajuda profissional especializada. Não permita que o medo, a vergonha ou a falta de informação transformem uma dificuldade que pode ser tratada em um obstáculo para sua vida sexual.

Até a próxima consulta.

* Tatiane Scotta, psicóloga, sexóloga e palestrante

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