Domingo, 20 de Setembro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 20 de setembro de 2026
A cúpula da campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva avalia que o pior momento do impacto eleitoral provocado pela crise no Supremo Tribunal Federal (STF), com o escândalo das relações de Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro, já passou.
Estrategistas petistas acreditam que o tema está precificado pelo eleitorado. Interlocutores do partido consideram que o governo conseguiu virar a página no período crucial: os 15 dias finais para o 1º turno, ou seja, quando a população passa de fato a prestar atenção no debate para definir o voto, como indicam as pesquisas. No entanto, um outro fantasma passou a rondar o Planalto: o ministro Flávio Dino.
Com essa percepção de alívio quanto às turbulências passadas, o clima no Palácio do Planalto retomou o otimismo. Integrantes do PT apontam que o presidente promoveu uma mudança de pauta bem-sucedida ao anunciar o aumento do Bolsa Família, manobra que esvaziou os holofotes sobre o STF.
Apesar das críticas pelo fato de a medida ser eleitoreira e em descompasso com as contas públicas, Lula conseguiu impor o debate sobre um tema que o favorece diretamente na captação de votos, num momento em que seu principal adversário, Flávio Bolsonaro, avançava sobre parte do eleitorado petista.
O ministro da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães, resumiu a orientação do governo: “Julgamento no STF é assunto enterrado e o foco agora é desconstruir a imagem de Flávio Bolsonaro”.
O entrave para consolidar esse cenário favorável, contudo, atende por um novo nome. Depois de a campanha ser afetada diretamente pela relação do presidente com Alexandre de Moraes, o fantasma que passou a rondar e preocupar o Planalto chama-se Flávio Dino. O temor dos governistas é que a conduta do magistrado reinicie a desgastante associação da imagem do presidente com as polêmicas do Supremo.
A atuação “lacradora” de Dino tem servido historicamente ao PT e a Lula. As recentes decisões do ministro no inquérito das emendas parlamentares, por exemplo, ajudaram o presidente a atacar o seu principal adversário na corrida presidencial deste ano, Flávio Bolsonaro, e também o ministro André Mendonça. No entanto, a postura do ex-ministro da Justiça do governo Lula na sessão do STF do dia 15 gerou críticas nas redes sociais e sinalizou potencial para retirar votos do presidente da República, que tenta a reeleição.
O atrito no plenário da Corte reacendeu pesquisas no Google sobre a trajetória do magistrado, sua posse em 2024 e o histórico da sua indicação ao cargo.
As buscas relacionadas a “quem indicou Flávio Dino ao STF” bateram recorde. Foram 50% maiores do que o pico anterior, em setembro passado, durante o julgamento da trama golpista. Entre as frases mais buscadas durante a sessão do Supremo na última semana estão “quem indicou dino”, “quem indicou flavio dino”, “quem indicou dino ao stf” e “quem indicou flavio dino ao stf”.
Ciente de que a sessão no STF ampliou a desconfiança da população em relação à Corte e reforçou um sentimento de indignação, o presidente Lula classificou o evento como um “show de horrores”.
O ambiente de tensão ficou evidenciado pela manifestação da ministra Cármen Lúcia, que pediu desculpas à população e afirmou estar em profunda consternação e tristeza. “Houve uma espetacularização desse caso, dessa sessão aqui, que não faz mal apenas ao Supremo, faz mal ao País”, declarou a magistrada. Única mulher a integrar a Corte e que acompanhou o debate em silêncio, Cármen Lúcia também acabou interrompida por Flávio Dino durante a sessão. A atitude do ministro no momento em que a colega fazia uma reflexão sobre a situação do tribunal gerou desconforto e repercussão negativa nas redes.
Diante do desgaste público, o presidente Lula evitou críticas diretas aos ministros que lhes são úteis e protagonizaram os embates na sessão: Flávio Dino, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes. Na tentativa de demonstrar descolamento de Moraes, Lula ressaltou publicamente que não indicou o ministro ao STF. O argumento, entretanto, não se aplica a Flávio Dino, escolhido diretamente pelo próprio presidente para a vaga na Corte em 2023.
Assim como ocorreu em relação a Moraes, estrategistas da campanha governista defendem agora o afastamento da imagem do presidente em relação ao tema Flávio Dino. Mostra disso é que interlocutores do governo começaram a ventilar que Lula manifestou queixas nos bastidores sobre a atuação de Dino durante a sessão do STF, na tentativa de impedir que o novo fantasma contamine a virada de jogo buscada pelo Planalto nesta reta final.
(Roseann Kennedy/AE)