Sexta-feira, 28 de Agosto de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 27 de agosto de 2026
Michel Henrique foi artilheiro do Campeonato Gaúcho pela segunda vez na carreira, em 2018. No ano anterior, o atacante já havia feito a sua primeira aposta, ainda em esportes. Quando a regulamentação de 2018 vetou que atletas profissionais jogassem, ele mudou para os cassinos online e viu a situação piorar.
“A partir de 2022 e 2023, eu já estava bem descontrolado, mentalmente falando. Estava totalmente viciado. E eu comecei a pesquisar sobre, a procurar alguma ferramenta, algo que me ajudasse a sair daquela condição”, contou.
“As plataformas online têm diversos jogos. Tem jogo para tudo que é gosto, tem jogo para tudo que é luzinha que atrai. E isso prende a pessoa. Já é projetado para viciar a pessoa. Ele vai dando pequenas porções, liberando a dopamina barata. O cérebro vicia, até que chega um ponto em que não tem mais controle”, completou.
O atacante de 37 anos, que hoje atua no Bagé, que disputa a Série A2 gaúcha, publicou um vídeo admitindo lutar contra a ludopatia, na tentativa de tornar o transtorno mais conhecido. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece a condição, cuja estimativa de pessoas afetadas era apontada em 1,2% da população mundial em 2024, segundo o órgão.
A partir da regulamentação das plataformas online no Brasil, acompanhando um movimento global, as empresas ingressaram no futebol como patrocinadoras. O Brasileirão e a Copa do Brasil, principais competições nacionais, hoje carregam o nome da mesma casa de aposta, que patrocina também o Flamengo.
“Gera um bom valor para os clubes, gera um bom valor para a imprensa, mas gera um bom valor em cima do sofrimento de outras pessoas”, criticou Michel, na entrevista. “O governo teve de tentar fazer com que as pessoas não jogassem o Bolsa Família”, disse, em referência ao bloqueio de quase 4 milhões de beneficiários de programas assistenciais em plataformas.
“De alguma forma está tentando, mas está tomado. E tu vês hoje adolescentes, meninos de base com 17, 18, 19 anos, já tão viciados. E o que vai ser desses adolescentes quando tiverem 30 anos, se não pararem, se não fizerem um tratamento específico?”, questionou.
Para lutar contra o próprio vício, Michel buscou ajuda por conta própria, lendo sobre o tema em artigos e assistindo a vídeos. “O vício da ludopatia, em determinado momento e nível em que tu já estás, acaba te envergonhando até para o pedido de ajuda. Tu acabas sentindo vergonha, perdendo muitas coisas, não tens força de pedir ajuda. Encontrei vídeos que me encorajaram a ter um entendimento dessa doença”, relembrou.
Quando publicou o vídeo nas suas redes sociais, no fim de julho, Michel estava sem recaídas há um mês. Atualmente, já são quase dois, segundo ele. Desde que iniciou com os cassinos online, o atacante não parou de atuar como jogador.
“Profissionalmente, em termos de rendimento, pouco me afetou. O que me afetou, no último ano e meio, foram escolhas. Por necessidade financeira, às vezes eu saía de um clube para outro numa velocidade que eu não fazia antigamente para poder pegar o pacote, o dinheiro na mão e sanar as consequências do vício e da doença. Acabei ficando muito distante da minha família”, disse.
No cenário nacional, Michel teve uma breve passagem pelo Coritiba em 2015, após ter sido artilheiro no Campeonato Gaúcho pela primeira vez, com o Passo Fundo. Em 2013, ele havia atuado pelo Guarani, de Campinas.
“Financeiramente, eu vou recuperar tudo. Eu tenho ciência, mas as coisas que eu perdi foram muito piores. É questão de dignidade, caráter, poder de fala, credibilidade. Perdi pessoas, perdi familiares. A conquista da confiança é muito mais difícil do que tu reconquistares a área financeira”, refletiu.
Michel pretende manter a voz ativa sobre a ludopatia. Após publicar o vídeo, ele relatou ter recebido mensagens de apoio e agradecimento de pessoas que também sofrem com a condição. “Enquanto há vida, há esperança. Não é da noite para o dia que tu vais mudar, que tu vais resolver tudo, mas eu estou fazendo para que, daqui a um tempo, eu possa estar estabilizado de novo. Peça ajuda. Se tu estás numa situação de desespero, tem pai, mãe, amigo, tio, tia… Pede ajuda, grita por socorro”, concluiu.
Bets diminuem no Brasileirão, mas banimento é distante
Em 2025, todos os clubes da Série A tinham patrocínios de bets. Apenas dois (Mirassol e Red Bull Bragantino) não estampavam as marcas no principal espaço da camisa, ainda que tivessem contratos com empresas do ramo. As casas de apostas online ocupavam a área máster dos uniformes em 18 equipes.
Já neste ano, os clubes na cota máster são 13. Projetos de lei em discussão no Congresso propõem a proibição de publicidade e promoções de jogos de azar online. Um dos PLs inclui veto a anúncios nos meios de comunicação, patrocínios a eventos e clubes esportivos e publicidade indireta, como a inserção de marcas em programas de TV ou em transmissões.
As marcas já são vetadas nas categorias de base. Athletic-PR, Bahia, Coritiba, Grêmio e Internacional, que romperam com bets na virada de temporada, continuam sem patrocínios másters.
Na Premier League, da Inglaterra, isso é realidade para os uniformes dos clubes a partir desta temporada. As bets ainda podem aparecer em mangas e camisas de treino. Medidas semelhantes já foram adotadas na Espanha, Itália e Holanda, com restrições mais amplas.
O governador de Minas Gerais, Mateus Simões (PSD), disse ao Estadão que vai proibir publicidade de casas de apostas em bens e vias públicas estaduais, incluindo estádios como o Mineirão e o Mineirinho. A medida segue iniciativas semelhantes em outras cidades e estados, como Rio de Janeiro e Belo Horizonte. (Com informações do O Estado de S. Paulo)